quarta-feira, março 27, 2019

O que eu queria era ser presidente da EMEL

O que eu queria era ser presidente da EMEL. Vi ontem na televisão. Pareceu-me fácil. É que eu tenho vergonha e ele não tinha, por isso queria, não quero. Quero aprender a fazer isso de não ter vergonha e aplicar no meu trabalho, que é melhor. Ao princípio um gajo até pode achar estranho, porque não foi criado por lobos, mas depois é confortável, não é bem mandar, é trabalhar à bolina, não interessa de onde o vento sopra, a direcção do cheque não falha, a rolha sobe, dois coelhos morrem por cajadada com garantia vitalícia.

terça-feira, março 26, 2019

Drafts

Tenho 30 drafts de posts. Vão desde análises profundas e importantes ao estado do universo até a problemas mais urgentes como a qualidade do pão lá no bairro. Não os acabo porque infelizmente estou em estado de alerta permanente e temo que uma das duas aconteça: não sejam bons que chegue para aparecer na Granta ou serem lenha para uma polémica online que me leve a ter de sair da internet e refugiar-me num sítio mais calmo, tipo o teletexto. Pensei que se escrevesse sobre escrever, teria hipóteses de chega à Granta.

segunda-feira, fevereiro 25, 2019

A televisão, 2019

O impacto da Cristina sair da TVI foi subestimado. Despoletou uma reacção cuja bola de neve está ainda no início da descida. A SIC mudou de escritório. A mesa da SIC está maior e tem mais curvas. Parece um ambientador. Quando apresentam infografias no telejornal, acrescentam-lhes efeitos sonoros. A TVI pinta as reportagens com photoshop, metendo layers de riscos e vidros partidos, tudo saido de um daqueles pacotes de texturas comprados na internet por 10 euros. As notícias têm musica de fundo. Ou será só um beat? A TVI faz um programa chamado Circulatura do Quadrado, quebrando a ultima barreira da quase-saudável auto-censura tuga que nos impede de cometer actos conscientemente maus. Temos HBO. O Correio da Manhã anda a vender-se como paladino da verdade e é tão verosímil como vender porno com um olho no pulitzer. Os programas reaccionários da manhã agora também são da noite. A Cristina também passa ao domingo. Até teria pena de quem não tem internet, se não conhecesse o youtube.

domingo, fevereiro 24, 2019

Já não tenho idade para isto

Quando o tempo útil das bandas esgota e continuam a recusar a morte, as bandas fazem albuns-de-merda. Os albuns-de-merda são  proclamados reinvenções, renovações, mudanças de paradigma. Uma tentativa de justificar o esgotamento do que tinham para dizer nos moldes em que se tornaram conhecidos. Exemplo: Os Arcade Fire cansaram-se de fazer o mesmo - até entendo, não podiam fazer aquele revivalismo mais tempo - e passaram a ser revivalistas dos ABBA. Mas quando estes albuns-de-merda começam a ser comemorados, é tempo de largar estas bandas. Uma banda tem um tempo útil (talvez os Depeche Mode sejam os únicos que resistem).

terça-feira, fevereiro 19, 2019

A era da excepção

Tenho saudades dos tempos de menino, como o outro. Nos tempos de menino, um canal único, com apenas umas horas diárias de emissão, passava notícias monolíticas sem contraditório, sem imagens e quase sem oráculos num tom monocórdico. Era a voz do regime. Embalava, como uma máquina de white noise. Preto e branco. Só tinha de me lembrar que tudo podia rebentar a qualquer momento e que nunca daria para perceber como tudo teria começado. A não ser que estivesse atento ao tal pendulo da história, diziam-me. Se bem que este, tão tosco e tao mal definido, nunca chegaria a passar 2 vezes pelo mesmo sítio.
Eram tempos simples.
Hoje em dia, deixei de ver as notícias, vejo apenas os comentários dos que confirmam o que já sei e a informação nova chateia-me. Não quero perder tempo a descortinar qual é a verdade sobre a Venezuela ou o Brasil porque não há como consegui-lo em tempo útil, e eu tenho pouca utilidade para o tempo que não passo a ver memes no telemóvel. Talvez fosse útil aprofundar melhor o meu conhecimento sobre o universo mas dizem-me que a Venezuela só é uma ditadura se fizermos uma excepção às regras das ditaduras, o Trump é um estratega genial se ignorarmos 90% do que diz, o PNR é um partido como os outros porque no papel diz que não é racista, Portugal precisa de partidos liberais porque são diferentes do resto e todas estas considerações que o meu cérebro recusa aceitar depois de ponderar meio segundo.
 

quarta-feira, fevereiro 13, 2019

Scrolling down to oblivion

O spotify anda a enterrar os meus albuns favoritos no fundo de um longo scroll e a meter-lhes uma data bem perto do seu nome, de maneira a que não me escape que todos têm pelo menos 8 anos e que continuo a achar que são dos ultimos. Não posso fazer nada. Os Arcade Fire, por exemplo, deram uma de Cure e para não morrerem de velhos, suicidaram-se num album que parece de outra banda, que infelizmente é ABBA. Agarro-me ao que há, até ao dia em que me meterem os albuns debaixo de um "show more" ou finalmente, numa assinatura premium.

segunda-feira, janeiro 14, 2019

Experiência sensorial

Imagine-se uma colherada de um preparado que, antes sequer de ser provado, já cheira ligeiramente a lixo, de longe, mas que se ignora voluntariamente. Lixo doce. O gosto, que aos poucos se instala na boca mas que já habita o nariz e o céu da boca à conta do cheiro, oscila repetidamente entre algo doce e algo amargo, cruzando-se com as minhas memórias trocadas de cheiros doutros sítios, onde tanto me lembro do inclinar sobre um caixote do lixo cheio de cebolas no verão e o raspar de um grelhador com restos de carne carbonizada, tudo a repetir-se num movimento pendular em cima da minha lingua. Às vezes, parece que tenho borras de café na boca durante meio segundo. Mais uma volta e o sabor doce, parecido com banana, vem mais ao de cima, anulando um pouco o sabor a queimado e dando mais destaque ao sabor a cebola, ficando aos poucos um sabor até agradável, pode dizer-se bom, mas só enquanto não exalo o cheiro disto pelo nariz, que aviva o sabor inicial que já tinha esquecido, como quem aspira uma baforada de fumo de uma lixeira queimada a céu aberto. Também há uns tons de cheiro a presunto. O sabor é bom, parece durante um bocado. Mas assim que passa, fica só o cheiro a lixo. Isto não é uma metáfora.

sexta-feira, janeiro 04, 2019

Os programas da manhã não ficaram maus de repente

A vida da maior parte das pessoas que conheço é demasiado ocupada para perder tempo a ver os programas da manhã.
Para comprovar como os programas da manhã sã um ninho de reaccionários, basta fazerem como fiz há tempos: arrangem uma gripe e fiquem em casa deitados no sofá. Liguem a televisão e apreciem.
Entre os anuncios a mezinhas e panelas, à promoção de umas personagens sombrias, sempre autoritárias e muito zangadas com o mundo.
sempre licenciadas na escola da vida que placidamente vão debitando banalidades sempre violentas, sempre reaccionárias, sempre a promover a intolerância, o desrespeito aos direitos humanos, ao estado de direito, à lei. Aos apresentadores, cabe-lhes a rotina de abanar a cabeça ou um abanar de ombros em sinal de concordancia e pouco mais.
Se isto se passasse diariamente em prime time, acabavam em pouco tempo. Porque os elefantes que se passeiam no meio da sala durante a manhã, descansados da vida e que raramente são tema - também não é todos os dias que branqueiam nazis - seriam apreciados por toda a sociedade e não apenas por quem já foi engolido pela doutrina destes programas.


quarta-feira, janeiro 02, 2019

Primeiros dias

Tomaram banho no dia 1 de janeiro 45 pessoas na Nazaré, 36 na Foz do Arelho, 14 em Carcavelos.
O primeiro bebé de Volta, Oeiras e Idanha-a-nova nasceu com 4 kg e chama-se Gonçalo.
Morreram 13 pessoas nas estradas nacionais.
Já passou o ano na Nova Zelândia.
Comeram-se 16 toneladas de sonhos só na Estremadura.
As cadelas apressadas têm os filhos cegos.
16 emigrantes da Tornada voltaram para o Luxemburgo no mesmo autocarro.
O preço da farinha vai subir.
O paquete Funchal está no mar.
O Algarve e mais algumas regiões tiveram 100% de ocupação.
Os saldos começaram a 26.
Só tenho 2 riscos de bateria no telemóvel para o resto do ano.