Já estou aqui há um par de meses. No outro dia comecei a enumerar as saudades, e a dado momento na lista volto aos tascos. E Lisboa. O rio e o Cais do Sodré.
Uma coisa que tenho saudade dos tascos é o tempo. Aqui não há tempo. Estes tipos acham que trabalham muito porque estão muitas horas a trabalhar. Nós trabalhamos melhor, e isto está directamente relacionado com o tempo no almoço. Ir a um tasco bate qualquer restaurante americano no que toca a atendimento. Aqui são provavelmente mais solícitos, mais rápidos, e as doses são ainda maiores que num tasco. Até oferecem toda a coca-cola e água com gelo que quisermos.
Mas perco muito tempo a escolher o que quero comer. Dão-me sempre opções. E eu não quero opções, não quero pensar em opções. Acho que mereço não pensar em opções já que estou a pagar pelo trabalho de outros - aqui só estarei a pagar se pagar gorjeta, o que é uma tanga de uma sistema - para me servirem. Isso devia estar incluido no preço. Mas não: hamburguer? mal, bem, médio? Batatas? chips, fries, sweet? sauce? sour, mayo, spicy, medium spicy? Coke? small ( big ), medium, large? E depois disto tudo, quando acabo o prato, o que é dizem? nada. Passados 10 segundos de largar os talheres, metem a conta na mesa e desaparecem. Fazem isto até num restaurante vazio e sem mais clientes a chegar.
Mas eu entro no tasco e o sr. Martins já sabe que eu quero aquele prato que está a sair pouco nesse dia mas que está especialmente bom. Eu vou insistir no bitoque e vou ouvir que me vou arrepender. Ou no outro tasco, onde o outro gajo me pergunta se já alguma vez me arrependi de comer o que ele disse para comer. E vou comer com calma e esperar 10 minutos até me perguntarem se quero mais alguma coisa, o cafézinho ou a sobremesa, mais 5 minutos para o café e depois de pedir 2 ou 3 vezes, lá vem a conta. Isto é que é vida.
terça-feira, fevereiro 25, 2014
sábado, fevereiro 22, 2014
Daqui à distância
Este país aqui é enorme, novo, e feito por gente que não é de cá - aos de cá limparam-lhes o sebo em grande quantidade - e como tal tem facilidade em executar certos malabarismos que podem ser complicados para um país antigo de quase um milénio. Estes tipos são desapegados. São desapegados ao material que apreciam. Sim, gostam muito da sua televisão de 50 polegadas, mas deixam de gostar assim que surge a de 70 polegadas. Têm esta facilidade de largar tudo. As casas são de madeira. Fazem-se e desfazem-se a cada tornado. Tentam fazer alguma de tijolo? não. Refazem-na de madeira. Ou mudam de estado. Começam do zero. Criam coisas novas. Há algo no caminho disso? deite-se por terra. Não custa muito, são só coisas, prédios ou ideias. Tudo se renova menos a sacrossanta constituição.
Por aí, temos muita dificuldade em deixar ir. Somos hoarders, nisso. Ter muita história antiga não nos ajuda a criar uma nova. O terror de perder a calçada portuguesa foi um exemplo. Não é a solução ideal, mas não a descartamos, nem em parte. Guardamos tudo no sótão e vamos deixando acumular e ganhar pó, mesmo que dê um ataque de asma ou um tralho semanal pela escada abaixo. Não demolimos nada, deixamos expirar. O Porto é um bocado assim. A Ribeira toda não cai porque é de pedra. Mas já expirou.sexta-feira, fevereiro 21, 2014
Coisas que me deixam preocupado
O debate sobre a calçada portuguesa.
Vamos lá ser práticos. A puta da calçada não dá jeito. De tempos a tempos dou tralhos monumentais em frente ao Monumental, Deus a ver e não me ajuda, escorregando na puta da calçada. Reparem, não ando de saltos. Nem de sapato italiano. Metam pisos decentes onde eles fazem falta, é uma escolha racional. São estas merdas que me deixam preocupado, porque não há muita racionalidade nas discussões, também faz parte de ser português ser exagerado e dramático, e isto é algo que sei que é possível resolver de um modo racional e atempado, por outro lado sei que o Poder acaba por fazer o que entende porque podemos ficar a discutir temas como este ou a qualidade dos candeeiros do Chiado durante uma semana inteira e o pessoal - até os funcionários públicos - tem mais que fazer. Estou a imaginar um Prós-e-Contras à volta deste tema na próxima semana.
Vamos lá ser práticos. A puta da calçada não dá jeito. De tempos a tempos dou tralhos monumentais em frente ao Monumental, Deus a ver e não me ajuda, escorregando na puta da calçada. Reparem, não ando de saltos. Nem de sapato italiano. Metam pisos decentes onde eles fazem falta, é uma escolha racional. São estas merdas que me deixam preocupado, porque não há muita racionalidade nas discussões, também faz parte de ser português ser exagerado e dramático, e isto é algo que sei que é possível resolver de um modo racional e atempado, por outro lado sei que o Poder acaba por fazer o que entende porque podemos ficar a discutir temas como este ou a qualidade dos candeeiros do Chiado durante uma semana inteira e o pessoal - até os funcionários públicos - tem mais que fazer. Estou a imaginar um Prós-e-Contras à volta deste tema na próxima semana.
O país daqui ao longe
Vivemos num paraíso perdido, é o que me parece daqui. É complicado explicar isto, mas os Portugueses são principes, há uma nobreza na ingenuidade com que vamos sendo um povinho preocupado, e preocupado é o problema maior, com o que nos assola, o poder é que nos assola mais, nisso somos do pior, mas dizia somos um povo preocupado. Não somos tristes, somos preocupados. Deixamos andar e andamos preocupados. Não resolvemos, ficamos preocupados, sabemos o que vem lá, mais cedo ou mais tarde. Perdemos o tempo nisto em vez de começar qualquer coisa do zero. E quando um tuga consegue ir além deste fado adiado, emigra. É mais fácil que deixar de se preocupar com o que não muda.
Nota do emigrante temporário que diz sempre que não quer sair de Portugal porque gosta mesmo do país onde vive:
Apesar de tudo o que os taxistas possam dizer, Portugal não tem exclusividade nem particular tendência na burrice, Isto só em Portugal, dizem os taxistas com uma moca de Rio Maior numa mão e uma sandes de torresmos na outra. Não, isso que só acontece em Portugal acontece em todo o lado. O que não acontece em todo o lado é termos um país espetacular ( ainda que cheio de taxistas ).
Nota do emigrante temporário que diz sempre que não quer sair de Portugal porque gosta mesmo do país onde vive:
Apesar de tudo o que os taxistas possam dizer, Portugal não tem exclusividade nem particular tendência na burrice, Isto só em Portugal, dizem os taxistas com uma moca de Rio Maior numa mão e uma sandes de torresmos na outra. Não, isso que só acontece em Portugal acontece em todo o lado. O que não acontece em todo o lado é termos um país espetacular ( ainda que cheio de taxistas ).
segunda-feira, fevereiro 17, 2014
Os nomes
Fui perder-me pelo deserto. Aqui há deserto. O deserto é grande e imponente. Em Portugal o mais parecido que temos com o deserto é a Amareleja. O Alentejo é vasto mas não é imponente. É só bonito. É do nome. Uma terra que se chama Amareleja não pode ser imponente, é só quente e isolada. Aqui eles resolveram isso, acho que por compensação. O Americano é um ser social, já reparei. Fala, fala, fala, expõe, troca, fala, vende. Um Americano que vai viver para o deserto tem de justificar-se perante os outros Americanos. Por isso tiveram cuidado com os nomes. Um deserto aqui chama-se Death Valley. É melhor que Amareleja. Dizer que se vive ao pé de Furnace Creek é diferente de dizer que se vive ao lado de Aljustrel. Há sempre uma maneira de vender qualquer coisa aqui. Nem que sejam só nomes.
sexta-feira, fevereiro 07, 2014
quarta-feira, fevereiro 05, 2014
A cena dos quadros do Miró
Os americanos são burros, diz a tradição. Realmente, ando por aqui e encontro coisas deprimentes. É os chapéus do Duck Dinasty no supermercado, é aquelas tretas plantadas à beira da estrada, dinossauros em tamanho real feitos de sucata, aquelas road-side atractions dos lumox, essas bimbalhices todas. E este pessoal paga por isso. Gastam dinheiro, que não é pouco, nessa merda.
Mas também gastam dinheiro no Moma e no SFMOMA, para ver Picassos, Van Goghs, Pollocks e... Mirós. terça-feira, fevereiro 04, 2014
O país do Lessaz Faire
Sabemos como é: chegamos a outra terra e não temos ninguém conhecido, ninguém a quem damos importância, nenhuma família num raio de 2000 km e começamos a portar-nos de maneira diferente. Agora imagine-se um continente inteiro feito de emigrantes. Aqui ninguém tem problemas em fazer figura de emigrante, tanto que é a figura habitual que fazem. Acho que é isso que é ser americano: ser um emigrante à vontade. Ninguém deve nada a ninguém, não há horas para nada, metem conversa sobre qualquer assunto com qualquer pessoa - um género de Bairro Alto nos anos 90, onde havia tertulias em cada mesa - que encontram na fila do supermercado ou na paragem do comboio, debatem todo o tipo de temas no autocarro e desmontaram o significado de despropositado. Pode-se fazer tudo até que a lei diga alguma coisa em contrário.
sábado, fevereiro 01, 2014
A Califórnia é o mundo ao contrário
Ontem fui jantar a um restaurante português. As saudades apertavam, pegámos no carro e fizemos 20 km para comer um bitoque.
terça-feira, janeiro 28, 2014
Perdido pela cidade grande
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| Grande. |
Uma Lisboa aumentada e extendida ao comprido, com o tempo de Sintra. Tentei, como tento sempre em todas as viagens, andar a cidade toda a pé. É uma mania que vem de Lisboa e que não tem em conta cidades planas. Em Lisboa as caminhadas são ditadas pela orografia, os limites de cada passeio são fáceis de prever. Numa cidade que é plana ( tem dias ) e cujo mapa mostra ruas rectas com 2 km, é dificil criar limites para o andar a pé. Aqui apanhei um autocarro só para ir até ao fim de uma rua, depois de já ter andado mais de metade e perceber que não ia acabar. Foi uma decisão inteligente, especialmente porque os autocarros são um cenário igual aos de Portugal mas em versão cut-the-bullshit. Se na carris tenho de levar com a velhinha saudosa do Salazar, cá apanhei a velhinha que tinha andado agarrada ao cracka contar a vida dela e que não julga ninguém porque a vida dá muitas voltas e a vida toda do bairro à volta do autocarro, a rua recta é a aldeia, as histórias passam-se ao longo da rua, as personangens habituais entram e saem, o motorista preto já as conhece todas e fala-lhes naquele tom de preto-bacano-do-filme, a vida é dura mas passa-se, um tipo trabalhador e honesto há-de ser recompensado um dia.
Na rua outra vez, os contrastes são muito grandes, se uma rua é de lojas impecáveis e hipsters a passear o skate, o bloco à frente já é de sem abrigo e putas na rua, céu aberto que aqui ainda não vi uma geografia própria para a miséria, tanto as ruas boas como as más são abertas, a tal recta não se interrompe para mudar de anual income, é tudo a direito, na rua dos sem abrigo e dos seven-eleven vão os mesmo hipster de skate. (continua)A lingua
Falam muito rápido. Um gajo acha que sabe inglês espetacular e dá-se mal. Os adjectivos. Metem muitos adjectivos. Já disse isto, espera. Se não houvesse publicidade, os americanos continuariam a falar com muitos adjectivos hiperbolicos. Alias, metade do sucesso dos americanos deve-se a este facilidade em hiperbolizar o que fazem. Desde que estou aqui acho que sou um género de designer de alfama, não dou hipoteses de ter linguagem técnica nem de fazer de mim um génio. Fico-me pelas piadas genéricas e faço figura de urso, que o material que tenho não funciona bem aqui. É da pronuncia.
sábado, janeiro 25, 2014
Há uma coisa que vou sentir falta
Não estou aqui há um mês e vou sentir falta disto: Este pessoal não engonha. Não sei como serão nas relações pessoais, mas aí imagino que sejam complicados, - se numa conversa na paragem do autocarro são capazes de falar do que fizeram durante a vida toda e relatar o que andam a fazer no trabalho a desconhecidos, calculo que com um nível tão elevado de conversa de encher-chouriços demorem anos até realmente falarem de coisas sérias - mas no trabalho, não perdem tempo. Há um contacto para fazer? faz-se. Precisas de ajuda para fazer qualquer coisa? Aparece. Queres conhecer o sítio onde trabalham? na boa. Precisas de conhecer o director da empresa com quem trabalham há 2 dias? Toma o contacto. Coisas que em Portugal demoram dias ou semanas e que geralmente se resolvem com um telefonema.
A um tuga basta isto
Um tuga tem saudades de coisas simples, como pedir uma bica e ouvir o barulho da máquina do café, duas doses bate bate encaixa torce liga vapor.
Em Portugal as coisas são mais simples. sexta-feira, janeiro 24, 2014
Os carros
Dizer que os carros são grandes é um eufemismo. Ontem encontrei um SUV e um carro europeu lado a lado e pude ver que o carro europeu cabe debaixo da roda do SUV.
Qualquer ida ao supermercado é uma oportunidade de ficar debaixo de uma pickup ou de um SUV. Mas percebe-se o porquê disto: novamente, o tamanho do país. Se vou sair de casa, vou demorar pelo menos 20 minutos a chegar a qualquer lado, por isso é bom que vá em algo o mais parecido possível com a minha sala de estar.
Qualquer ida ao supermercado é uma oportunidade de ficar debaixo de uma pickup ou de um SUV. Mas percebe-se o porquê disto: novamente, o tamanho do país. Se vou sair de casa, vou demorar pelo menos 20 minutos a chegar a qualquer lado, por isso é bom que vá em algo o mais parecido possível com a minha sala de estar.
sábado, janeiro 18, 2014
São malucos os americanos I
Os refills
Pensava que já tinha percebido o domínio dos refills. Pede uma bebida, dão-te um copo vazio, podes escolher o tamanho do copo mas podes ir encher o copo as vezes que entenderes. A escolha do copo passa por prever que peso se consegue levar para fora ou a distância que vai ser percorrida até comprar um novo copo noutro sítio ( no outro dia entrei num supermercado que oferece café enquanto se anda lá dentro ), um americano está sempre a beber qualquer coisa.
Quando não temos acesso à máquina das bebidas, provavelmente não há refill. Mas ontem estava a comer numa esplanada e lá vem a empregada perguntar-me se não quero refill, o que me faria beber um litro de coca-cola só até à hora de almoço.
Quando não temos acesso à máquina das bebidas, provavelmente não há refill. Mas ontem estava a comer numa esplanada e lá vem a empregada perguntar-me se não quero refill, o que me faria beber um litro de coca-cola só até à hora de almoço.
os adjectivos
Em Portugal um tipo vai a um restaurante e se estiver a pagar um pouco mais do que o habitual, leva com adjectivos extra na comida. As batatas deixam de ser assadas e passam a ser "pequenas batatas assadas", o pargo deixa de ser pargo e passa a "pargo fresco" e assim por diante. Aqui na Califórnia os adjectivos ficam à porta e fixam-se na quantidade. Se pedir uma coca-cola, perguntam-me que quantidade. Repara, não dizem "grande" ou "gigassauranorme", mas enumeram as quantidades, 1/4 de litro, 1/2 litro, 2/3 litro. A mesma coisa para o bife. Bem passado, mal passado, 1/4 de kg, 1/2 kg, 2kg, etc. Depois as calorias. Os menus dos restaurantes têm as calorias uma a uma. E os Carbs.
Pedir um bife parece um enunciado de uma troca de moles da aula de quimica. E demora tanto como uma.quinta-feira, janeiro 16, 2014
A ganância
O americano gosta de acreditar que o trabalho é bom porque lhe trará tudo. O tuga já percebeu há muito que nada garante nada. Nesse aspecto já estamos muito à frente no tempo. Só ainda não implementámos um sistema porreiro para quem gosta de trabalhar. O americano faz cumprir os seus objectivos. Nós seguimos o que o fado ditou. Eles têm um país gigante que resolveram preencher por ordem directa de Deus. Nós vamos ocupando o nosso à bruta.
terça-feira, janeiro 14, 2014
A estrada
Não consigo dizer o que veio primeiro, se o copo se o carro. Todos os carros têm um cup-holder gigante, que forçaria todas as dimensões do carro a aumentar de forma a conter o copo num holder confortável. Pode ter acontecido o inverso também: Os carros gigantes convidam a trazer quantidades maiores de bebida, que com o tempo foram aumentando mais e mais, derivado das distâncias a percorrer.
segunda-feira, janeiro 13, 2014
Barroco americano
A experiência visual americana é fácil de identificar. O design gráfico, de produto, industrial, automóvel, tem um feeling que eu costumo descrever como "barroco". O americano tem alergia ao vazio, tudo tem de ter montes de ornamentos e adjectivos. Ainda não percebi de onde é que isto vem, mas até voltar a Portugal resolvo esta teoria que tem anos.
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