domingo, julho 27, 2014

Sobre criatividade e trabalhar nela, para fechar

Isto são verdades absolutas e imutáveis, ponho-as aqui para servirem de recado para angustias vindouras:

  • Todas as pessoas são criativas, independentemente da sua idade, formação profissional, aceitação ou negação. Não existe a capacidade de não-criar.
  • A prática e aplicação da criatividade não é exclusiva a nenhuma área profissional em particular; Um designer, um talhante ou um matemático fazem-no regularmente.
  • A expressão mais universal da criatidade é o design e a comunicação visual.
  •  A prática de Olhar é comum - VER não é - e erroneamente convence quem olha de que o hábito lhe incutiu a capacidade de se expressar visualmente.
  • A vulgarização do acesso a imagem e a ferramentas de criação de imagem desbaratou-a, tornando-a mais e mais descartável.


    E esta é a explicação teórica para a merda dos clientes.

sábado, julho 26, 2014

Eu não sou o Target

É tudo bom, eu é que não sou o Target.

sexta-feira, julho 25, 2014

quinta-feira, julho 24, 2014

3 milhões

Gostava de estar lá a ver Ricardo Salgado a assinar o cheque de 3 milhões de euros para ficar fora da choldra. Queria perceber se 3 milhões é um valor absoluto ou ainda é relativo.
Que cara é que um tipo que respira, que lá no fundo tem uma vida como a minha, vai almoçar, tem familia, tem duas pernas, larga - porque não vai ficar onde um outro gajo qualquer, com uma vida, no fundo, como a nossa, que teria simplesmente de se aguentar e não refilar muito - várias dezenas de vidas de ordenado acumulado de um tipo normal?

  • Custa-lhe tanto como a mim largar o dinheiro da segurança social?
  • Custa-lhe como pagar uma multa de estacionamento?
  • É como ir na rua, meter a mão no bolso e dar pela falta de uma nota de 20? ( foda-se )
  • É como perder um braço?
  • Pensa "lá vou ter de cortar nas despesas."?
  • Pensa "já ontem me calhou a carta dos impostos no monopólio, isto é uma maré de azar".
  • Já não tem noção de nada só porque não sabe quanto custa uma carcaça?
  • O que é que diz à mulher? "foi só desta vez, querida."?
  • O que é que diz a ele mesmo? "Nunca mais faço uma destas, juro."?
  • Os zeros cabem todos no cheque ou só consegue escrever por extenso?
  • Pensa na quantidade de aviões que anda a cair por semana e acha-se um gajo com sorte?
  • Ainda usa cheques? Os zeros todos cabem no ecran do multibanco?
  • Qual é o código de multibanco de um gajo destes?
  • Afinal a nota estava no outro bolso.

Nisto houve uma coisa que me surpreendeu pela positiva. Já estava eu no trabalho a apostar em quantos quartos de hora ele estaria na rua - graciosamente, claro - quando descubro isto, que teve de pagar para sair. É um sinal dos tempos, e é um bom sinal.

Nos idos de 1980

Há 30 anos, a publicidade era uma industria de vanguarda. Cheia de talento, dinheiro e vontade. Se calhar isto é só mito e no fundo era um industra salsicheira como é hoje: a criatividade existe, simplesmente não é o motor que as faz andar. Esse é o lucro. Toda a industria anda como se esse lucro não tivesse origem na criatividade mas na produção de salsichas. E agora faz-se muita salsicha. O objectivo inicial perdeu-se e estão também a perder-se criativos e a ganhar muitos salsicheiros.
As Startups são agora a vanguarda - onde está agora o talento, o dinheiro e a vontade - com a premissa inversa: O que as faz andar é o lucro e o motor é a criatividade. Não há clientes na equação - poderá haver um equivalente, mas como esse cliente abstracto é ganancioso, só quer saber de números, não quer saber como chegamos lá ( como deveria ser um cliente de publicidade, no fundo ) - e só temos de fazer o melhor que sabemos para chegar lá.
Lembrei-me disto porque há uns tempos, a meio de uma reunião de produção, chegou-se a uma conclusão que cheirava a salsicharia da publicidade: uma ideia cega que não tinha em conta o mundo real e que só funcionava na cabeça de 2 ou 3 humanos. Em anos, foi a primeira vez.

Nota: As startups são apenas empresas. Só isso.

terça-feira, julho 22, 2014

Ando a ler um livro que me está a influenciar nesta opinião, e não deixa de ter piada a sua origem

Os sindicatos dos professores são paranoicos. Paranoicos porque funcionam num modo emocional. Só emocional. A parte racional parou em 1982 e desde aí empregam o mesmo racional por defeito, e actualizam ( não muito ) a indignação paranoica. Lidar com sindicatos é coisa para psicólogos, não para políticos.

Amanhã actualizo isto, quando ( se ) perceber realmente - ninguém explica isto racionalmente - o que se está a passar.

Update: Confirmo. O que se está a passar é o PC com o discurso parado em 1982, em loop. Nem se chega a perceber o que realmente está a acontecer, mas é "depois do 25 de Abril de 75."

segunda-feira, julho 21, 2014

Hiper-relativismo absoluto

Guerra:
Estudos indicam que as crianças portuguesas dos anos 70 são hoje adultos incapazes de considerar qualquer tipo de movimento militar ou político ou qualquer tipo de acontecimento isolado como capaz de despoletar qualquer tipo de conflito global devido a exposição prolongada ao conceito a) de guerra fria. Estudos indicam que até ao rebentamento de um obus ( ainda há obuses? ) nos pasteis de belém, não há motivos para alterar qualquer tipo de rotina nem considerar nenhum tipo de cenário hipotético.
Num teste cego com historiadores, escritores advogados militares e políticos frente a vários cenários - Vasco granja, Vasco Gonçalves, Estaline, um cesto de vi-me e vários exemplos de capicuas num crisma ( os cenários foram escolhidos por cegos ) - revelou-se um consistente incapacidade de, apesar dos profundos conhecimentos na área, conseguirem demonstrar algum domínio em futurologia. 3 em cada Nuno Rogeiro culpam a volatilidade do pensamento humano por este facto.

terça-feira, julho 15, 2014

Demasiada informação

Há uns anos, um amigo meu fartava-se de gozar com os designers do IADE. Especialmente as miudas. Chamava-as de meninas-do-Keith-Haring, porque era isso que eram. Hoje tenho de lhe dar razão porque realmente havia ali uma falta de substância - em vários pontos, começando pela idade, ninguém espera que estudantes universitários sejam espantosos em muitos aspectos, especialmente no que toca a experiência de vida - que era colmatada com esta apropriação de trabalho dos outros, como se seguir ou gostar de um artista, corrente ou ícone nos aproximasse das qualidades que julgamos inerentes a esse dito... espera há pessoas com mais de 30 anos que ainda acham que isso também funciona com estas e todas as outras coisas, tipo restaurantes, galerias de arte ou concertos e coiso mas não, gostar de Damien Hurst não me faz mais inteligente, nem mais próximo de atingir o que ele faz, só faz mais disponível a aprender mais umas coisas no fundo sou burro como sempre mas com mais referencial para provar que não sou burro e agora estava ali a ver uns designers a fazer mapas de tasks na parede com dezenas de post-its e a pensar que os métodos muito elaborados de trabalho são um pouco como gostar de Keith Haring.

Estudos indicam que 1 em cada 2 cadeiras não tem par

Cronologia de cafés lisboetas em linha evolutiva:

O café Vintage Indie: há 10 anos, já havia cafés vintage. Estes primeiros cafés lançaram o estilo de todos os que se seguiram: O estilo Sortido. Cadeiras, mesas, candeeiros, pratos, copos. Nenhum destes itens deve ser encontrado repetido dentro do mesmo sítio, todas as peças devem ter pelo menos 30 anos. A decoração vai desde raquetes de badmington a bidés e jogos da Majora. Estudos indicam que nesta fase, estes cafés eram originais.

O café Vintage Indie proliferou, ao ponto de qualquer pessoa poder entender e copiar o estilo e trazer elementos novos. Surge o estilo Sortido-Amelie:
O mesmo sortido de cadeiras e afins, mas com um só tipo de copos. Copos que não casam é coisa de malucos e davam ar de falta de concentração. A decoração é geralmente opressiva. Geralmente deixa-se o bar atolar de tralha tirada da feira da ladra, a escolha dos objectos aparentando ser arbitrária. Revertem em foto-ops para o instagram facilmente.

Aparecem depois os bares estilo Amelie-Bandwagon. O somatório de tudo o que foi feito até aí, mas já apropriado por qualquer pessoa destituida de cérebro e vontade. A decoração comporta tudo o que já foi referido, o que os distingue é o espaço onde se inserem, que geralmente está à beira do desmoronamento mas com intervenções pontuais, ora extemporaneas, ora simplesmente erradas. Estas podem ir desde as lampadas de halogénio aos plásticos a tapar o buraco no tecto.

Finalmente, surge o estilo Vintage Gourmet-Bandwagon. As cadeiras, pratos, copos e mesas obedecem a um manual corporativo, a decoração é feita de tralha escolhida a dedo por decoradoras, de modo a não ofender o gosto pré-adquirido dos clientes, passando obrigatoriamente por pelo menos um quadro de gis com lettering mais ou menos cuidado ( vide instagram ). É a versão comercial do Vintage. Distingue-se pelo cuidado especial ao menu, que vai mudando conforme o que estiver na moda - vide Gin e Hamburguers - na cabeça dos hipsters.

Nota do Prezado:  Os diferentes tipos de café vintage têm em comum a sua génese. São empresas familiares de novos-ricos. Isto é comprovado pelo atendimento, que é sempre o pior possível no que toca a eficácia. Estudos indicam que 95% das pessoas que pedem uma tosta ouvem do empregado um chorrilho de queixas sobre o tempo que a máquina leva a ligar e têm uma tosta mista ao fim de 45 minutos.

domingo, julho 13, 2014

O Papa

Lembrei-me agora que esta semana vi o Papa a dizer que não ia rezar pela Argentina na final. Como muitas outras coisas que o Papa diz, Podia jurar que o disse como uma piada, juro que vi um micro-esgar de milisegundos, uma micro-pausa a esperar a resposta, a convidar ao escape do riso, uma culpa freudiana quase a rebentar.
Se dessem o público certo ao Papa, ele era um grande número de stand up. Era só à base de pausas certeiras.


terça-feira, julho 08, 2014

Freelance ( em Portugal )

Consegui ser pago. Ao fim de mais de um ano.

O problema com o freelance não é "só em Portugal". Freelance é freelance, independentemente do país. É igual. Prazos, entregas, discussões, orçamentos, fugas ao orçamento, horários, emergências, isto tudo por um budget que pode começar por parecer ganancioso, passando a mais que justo, injusto e finalmente, grátis. Isto acontece em todo o lado. Mas também acontece haver outro tipo de freelances. Mas poucos.

"Só em Portugal", são duas coisas: não valorizar o trabalhos dos outros ( seja qual for ). Sermos poucos.

segunda-feira, julho 07, 2014

Nova vizinhança

Os prédios, um pouco como as pessoas, começam por parecer normais até que ao fim de uns tempos começamos a perceber que afinal não há prédios normais.
Os vizinhos da frente são invisiveis e manifestam-se pela presença de terceiros. Ora é o eletricista ou o canalizador. Vejo que há uma força motriz atrás daquela casa mas não vejo nada. Devem ser forças da natureza.
A de baixo é surda, parto do príncipio que é uma velha. Só lhe ouço a televisão. Tem uma neta beta.
Os de cima não fazem barulho.
Os de cima de cima são os melhores: têm um cão que gosta de descer a escada a cavalgar o mais rápido possível mas que infelizmente não passa a obdecer a ordens por mais alto que as gritem.
Falta-me descobrir qual foi o vizinho que sussurou para a escada um SHIUUUUU muito alto para que os trolhas no rés-do-chão camartelassem mais baixo.

terça-feira, julho 01, 2014

Preciso de água das pedras para o plágio

O pessoal gosta de chamar plágio a qualquer coisa e nomeadamente a tudo o que seja parecido com outra coisa ( tudo ). De tempos a tempos, acontece algo raro: a acusação de plágio ultrapassa o meio onde nasceu, a escrita, o design, a ilustração, a arte, e entra na conversa de café. Mais raramente, depois de entrar na conversa de café, pede-se a responsabilização de alguém. O que em Portugal, é um caso sério.
Não temos por hábito fazer isso às pessoas. Podem ser nossos primos, amigos, vizinhos, ex-amantes, guarda-freios, vendedores de cautelas, deputados ou anónimos ( mas amigos de um vizinho que ainda é primo de um deputado ). É o que dá sermos poucos e pouco dados a modernismo.
Tirando a Clara Pinto Correia, não me lembro de nenhum caso de plágio a chegar à conversa de café. Mas no canto dos cafés na agência, havia conversas de plágio.

O Plágio real é raro. Já a sensação de me estarem a enganar é vulgar. A acusação de plágio funciona nos mesmos moldes da acusação - aqui usa-se sempre o Picasso, já vão ver - de que até o meu puto de 5 anos pinta o mesmo que o Picasso. Sim, também qualquer pessoa copia qualquer coisa já feita. Mas é o contexto e a intenção em que o executa que faz a diferença. 
Pois, a porra das ilustrações das garrafas Castello é inspirada num autor conhecido. Mas é isso, inspirada, trabalhada sobre, iterada. O que é, mais coisa menos coisa, voluntaria ou involuntariamente, como a criativadade e o mundo andam para a frente. A ver o que os outros fazem, mas melhor.
O que está ali é outro trabalho, outra intenção. Trabalhada. Mas pouco.
Para sermos correctos, a ideia foi roubada.
E como se sabe, vergonha é roubar e ser apanhado.

quarta-feira, junho 25, 2014

Se fosse noutros tempos, eu topava a meio

- Porra, mas que horas são? parece-me que cheguei aqui de manhã, mas é noite.
- Não sei.
- E não me lembro mesmo como é que cheguei a casa. Como é que pode ser? nada. Eu não tava com os copos. Não me lembro de abrir a porta, de subir a escada, nada.

Eu devia ter reparado que estava no momento-inception do sonho.

O melhor do Bairro

O Mercado da Ribeira que eu conheço mete esta história: Numa noite memorável de copos, um tipo muito bêbado senta-se à minha frente num tasco de muito má fama e diz onde nasceu, a meio da verborreia sem sentido. Ali ao lado, no mercado da ribeira, parido entre duas bancas do peixe, há muito. Passados 60 anos, a vida passava-se toda ainda em volta do mercado da ribeira. Se o homem ainda é vivo, está ali à volta do mercado. Mas largou a bebida e meteu-se na coca.
Porque depois de ver o que fizeram ao mercado, é a unica forma de lidar com a realidade.
O mercado da ribeira está feito uma espécie de gare com restaurantes indiferenciados, um refeitório de luxo. Ir ao mercado da ribeira na esperança de comer coisas diferentes seria o mais natural. Como ir ao circo. A piada do circo é ser universal. Há de tudo. Quem não gosta de palhaços, vê os leões, quem não gosta de animais, vê o ilusionista, quem já conhece os truques, vê as trapezistas. Quem não gosta de circo, vai a restaurantes a sério.
O mercado é um circo só de palhaços. Eu com a mania traduzo para americano: é um one-trick-poney. Na senda do neo-vintage-neo-cool-neo-retro, meteram todos os números de circo do mesmo género, os tascos-do-bairro, a mercearia-do-bairro, o-melhor-bolo-do-mundo, a peixaria-ideal, os enlatados-portugal no mesmo espaço, normalizando tudo. Todos são tradicionais, todos adjectivam os menus, todos misturam abacate com salmão braseado e amendoins. Sim, já percebi: há coisas que parece que não casam mas para quem sabe apreciar, casam. Eu sei, eu sou um brutamontes, não sei apreciar pêra com farinheira. E bolo do caco. O caralho do bolo do caco. Com hamburguers. E farinheira. E sumos detox. E farinheira. E mais hamburgers.
Tudo novo mas a imitar velho mas com pratos novos mas com coisas antigas. No meio de tanto defeito, tentei encontrar outro motivo para tudo estar mal que não fosse eu. Acho que é a falta de genuinidade.

Comi bem. Nunca mais lá volto.

sábado, junho 21, 2014

Dantes não havia nada, foda-se.

A cena Vintage veio para ficar. Era fácil de gostar de coisas retro. Apelava a valores que achamos que vingavam noutra altura - na prática não fazemos ideia, não acredito que o pão de 1946 fosse melhor que o de hoje - tinha uma estética bem pensada, eram very-tipical.
Mas isto vem de lá-de-fora. Onde há uma tradição de design, do marketing, dos serviços. Há um contraste e há uma história. 
Mas nós sempre fomos retro-vintage. Ou quase, porque no fundo nunca tivemos nada que se assemelhasse ao comércio que agora simulam. Eramos só pouco endinheirados. Aquelas tralhas todas-diferentes-todas-iguais retro vintage que agora ocupam a praça da ribeira, que nivelam tudo por igual nunca foram Portugal. São tiradas do imaginário americano. Onde o Retro convive com milhares de outras coisas. Aqui tudo é retro, tudo é actual, tudo enjoa. Logotipo antigo não é logotipo bom, é só uma visão do antigo. Não passa disso.

Lembrei-me disto porque hoje de tarde passei por 4 VW beatles dos antigos, fila indiana, cada carro descapotavel com uma pessoa só, de boina. Um serviço de turismo, mais um, onde cada um anda num VW à laia de carrinho de choque. Uma pessoa por carro. A ocupar espaço.
Lisboa, especialmente na Baixa, está cheia destes serviços. Que ocupam tudo com histórias que não são as nossas. Nós não tivémos retro nem vintage, só tivemos probreza da boa. Não havia Santinni para pessoas pobres mas honestas. Havia pastéis de bacalhau. Não havia Padaria Portuguesa com bicicletas paradas à porta. Havia alguém a fazer entregas na bicicleta, Lisboa abaixo e acima, de tudo o que calhasse. Era trabalho. Se querem achar que algum tipo de trabalho honesto tem glamour, imaginem o vosso trabalho de hoje a ser descrito com glamour daqui a 80 anos. O meu não tem muito. Depois, os hotéis. Mais que a gentrificação, - é ver como está o Cais do Sodré - a quantidade de hotéis, airbnb's e hostels na Baixa começa a enjoar. A cidade só tem piada se tiver as pessoas dessa cidade a viver lá, e não um aglomerado de quartos para alugar a estender-se desde Alfama até Santos.
Vejo isto, penso na Lisboa do Facebook e da internet, aquela que é a mais bonita da Europa, que tem o melhor qualidade de vida votada por alguém algures, um relações públicas algures encarregue de vender um hotel novo e lembro-me do sul de Espanha, que era um sítio bonito e que foram enchendo com apartamentos à tripa-forra até ao ponto em que milhares de turistas puderam finalmente pagar uns dias de férias com vista para outros apartamentos. E quem lá vivia, foi-se.

segunda-feira, junho 16, 2014

Inédito

O Prezado vai falar de bola.
É preciso.

Há 10 anos, deu-se o euro 2004. Isto, para quem não se lembra, foi o apocalipse now da bola para quem não gosta de bola. E eu na altura, não gostava activamente de bola. Era coisa para, como bom velho do restelo sindicalista, reclamar por manifs contra, fechos de canais de televisão e bombardeamentos em estádios. Como no Brasil, em Portugal também havia gente a dizer que era só dinheiro mal gasto, o país no estado em que estava - a tal crise, mas uma outra que aparentemente não devia ser esta mas que no fundo é a mesma - e o pessoal a enterrar dinheiro em estádios para serem usados 3 vezes. Eles lá estão, uns elefantes brancos lá para Vila Nova da Fateixa ou Cerzimunde ou outros sítios onde judas perdeu as botas ( não são Lisboa, por isso é sempre longe ). Eu sabia! Eu avisei.
Dizia, 2004. Publicitário. Fiz eu fiz campanhas de publicidade para o Euro. Só para melhorar a coisa. Eu, que continuo a saber de bola pouco mais que nada. O campeonato a começar em Junho e eu já cheio de mupis, folhetos, brindes, posters, cartazes, pendurantes, jingles, press releases e o diabo a sete desde 2003. Depois, a histeria. Para quem não se lembra, aquilo a que se assistiu naqueles tempos foi o sonho molhado de todos os deputados: um povinho obcecado até à doença com a bola, completamente alienado, a bola só a bola, durante não sei quanto tempo só se falou de bola, só fiz campanhas com bola, tudo vendia com bola pelo meio, desde sabonetes a seguros, de cotonetes a shampoo anti-caspa. Tudo. Olhando para trás, não sei como é que ninguém aproveitou para fazer um golpe de estado. Ninguém ia notar. Nem houve incendios esse ano.
Dizia, 2014. Tolero a bola. Aprecio a bola como aprecio concertos de B Fachada: encosto-me ao bar, bebo uma imperial fresquinha e estou na conversa um bocado. Sei tanto de jogadores como sabia há 10 anos: há o Meireles, o do cabelo. Há o Fábio Coentrão que tem um nome sinestésico, tão mau que vejo cores e ouço sons e assim não esqueço, há o Ronaldo, que pelo que ouço é o maior do mundo mas tanto no sentido de ser uma besta como no sentido de ser bestial. E há o selecionador, o cabisbaixo do risco ao meio.
Apesar disto, vi mais jogos no ultimo ano que nos ultimos 10. Não mudei de opinião, só o tolero pelo que é. Assim como aceito que o mundo tem guerras, fome e doenças incuráveis, aceito que tem bola, e que lá no fundo, um jogo de bola não muda nada.
Até hoje. Foda-se um gajo está com boa vontade para ir beber umas jolas e curtir 90 minutos e estes labregos metem toda a gente pior do que estava?
Por isso é que não curto bola.

sexta-feira, junho 06, 2014

TV WC

Nos anos 80, uma musica dos Taxi dava o mote para os pós-modernos-de-bairro-alto de 90 afirmarem a uma posição. "não tenho televisão sequer" era dito com garbo ( ainda é, pelo pessoal que ainda pensa em televisão e não em Smart-tvs e Vimeo em couch-mode ) . Hoje a coisa inverteu e parece-me que aquela lenga-lenga, ponto assente, que gostar de televisão é coisa de conformistas, como diriam os góticos do SouthPark, morreu.
Ainda assim: Não, eu não vejo o Game of Thrones. Não, não seguir séries não é estranho, nem é uma opção que tomei. Nem é um "statement". Seguir uma série é que é uma opção. É só tv.

quarta-feira, junho 04, 2014

Só naquela

Não é que António Costa seja genial. É um produto do aparelho do PS, afinal.
Mas Seguro é igual ao Passos, por isso não pode ser. Já chegou.

terça-feira, junho 03, 2014

Os saloios

Disclaimer: ser tuga não é uma cruz nem somos especialmente diferentes de qualquer outro povo senão no número. O número ( pequeno )  condiciona tudo o resto. Sermos poucos torna-nos mais visíveis. Sermos poucos torna-nos todos primos uns dos outros. Isso compromete-nos. Juntem a isso umas condicionantes lixadas, tipo cultura, educação, dinheiro e está a caldeirada feita. Ainda assim, não somos diferentes dos americanos, noruegueses moldavos ou australianos. Só somos poucos e temos mais duns tugas que doutros.

Temos mais saloios. Somos saloios. Os saloios são rápidos a achar que lá fora é que se trabalha e que se faz e acontece. Mas não. Cá faz-se o mesmo e se não se faz é porque outros saloios, primos de certeza, não querem que a coisa mude. Os saloios são bons a queixar-se de tudo mas péssimos a chegar-se à frente quando chega a vez de pagar a multa de estacionamente, usar o saúde 24, ir votar - nem que seja no CONTRA -  ou simplesmente fazer qualquer coisa despreocupadamente. Devolver, como diz o gajo zen do trabalho.
O pessoal saloio gosta de dar o exemplo - que toma como real e jurará a pés juntos que só cá só cá - de comportamento tuga aquela imagem do trolha no buraco a cavar com 6 tugas, um carteiro, 2 polícias, 3 reformados, reformados 3 mesmo, não são 3 polícias reformados porque eram só 2 eu disse 2, mas essa imagem é tão tuga como ter sede ou nascer com 2 rins. Essas manias são dos humanos. Nós temos é um excepcionalismo sebastianista.