sábado, janeiro 03, 2015

Intermédio para mau

Intermédio é o novo programa do Nilton.
O Nilton é uma daquelas pessoas que o Bill Maher chama de "smart-stupid". Se ele tem vários programas de rádio, televisão, livros e trabalha consistentemente em humor, tem de ser um tipo inteligente. Mas assim que abre a boca, prova o contrário. Deve ser de propósito, só pode.
As pessoas precisam daquele gajo-com-piada, terra-a-terra. Mas isso não é desculpa para fazer aquele programa.
Funciona assim: É um noticiário satírico onde, seguindo uma estrutura muito rígida - introdução da locutora, video da notícia, comentário do Nilton, risos - , assistimos a notícias que não têm grande piada frente a um cenário a fazer lembrar o Iraque, durante tempo demais.

Uma desgraçada que largou o Porto Canal lê uma notícia da maneira mais longa e objectiva possível, ( a escolha das notícias parece-me que passa por critérios de um miudo de 12 anos ) passam um clip da notícia que passou no telejornal, mais longa ainda, corta para Nilton, Nilton diz uma piada muito rápida e curta - sempre algo como "ah, a Angela Merkel esteve em Frankfurt? espero que tenha trazido salsichas!" - e as pessoas riem-se. Esta parte para mim é a mais complicada de analisar. Eu nem sequer sorri durante quase um episódio inteiro.
Corta para nova notícia, estrutura repete-se, Nilton agora usa props, - prop comedy não é bom -, o livro-grande-com-lista-infindável, depois o maço-de-folhas-com-lista-infindável, só para chegarmos à conclusão que andava à procura de uma punchline.
Humor é muito difícil de fazer. Há ali guionistas, actores, cómicos, cenografistas, editores, realizadores, muita gente a trabalhar para que tudo aconteça, e o resultado final é aquilo.

sexta-feira, dezembro 26, 2014

A Cláudia

A Cláudia é a inteligencia artificial das empresas, diz o anúncio. A Cláudia é uma referência visual ao Tron, um filme de culto que ninguém gosta senão pelo facto dos actores usarem fatos neon futuristas. O problema da Cláudia é que a meteram num fato desses, o que à partida é uma boa premissa porque de facto uma miuda fica bem dentro daqueles fatos. Mas a tentativa de usar o modelo clássico de publicidade para empresas ( falta de ideia + gaja boa ) saiu-lhes ao lado. Conseguiram fazê-la tão sexy como um agrafador, um quadrado com pernas, um ser monodimensional, matando a premissa para sempre.

É natal lá longe

Os pobres que só conhecem o Natal de Lisboa não sabem o que perdem:

Ter Natal na terra dos ancestrais implica visitar 200 primos, beber pinga caseira em todo o lado, jogar snooker no café da terra, com uma mesa já toda quinada, comer filhoses, comer peru, discutir sobre o peru, comer vitela e discutir qual é o peso ideal para matar uma vitela, o que a vitela comeu em vida, comer galo e discutir de onde veio  o galo e quem o matou, beber vinho carrascão, beber água-pé, comer filhoses, brincar com 5 primos novos todos os anos, descobrir novos primos velhos também, apreciar lareiras, apreciar caldeiras a gás, apreciar caldeiras a lenha, apreciar salamandras, apreciar qualidades de lenha, carvão e briquetes e discutir o assunto durante horas, discutir estradas, caminhos e atalhos e a forma como chegar do ponto A ao B nos dias presentes e em tempos já idos, discutir o frio, quantificá-lo e comer filhoses.

segunda-feira, dezembro 22, 2014

Verdade absoluta VII

Não invistam só em cultura pop. Conhecer meia dúzia de clássicos ajuda bastante. Refiram Joyce num post e parece logo que querem dizer mais do que pensaram.

Tosta mista, tempo padrão

Teorias várias tentam explicar o porquê deste fenómeno: vão a uma esplanada/café da moda e vão ter de esperar meia hora por uma tosta mista. "A Máquina demora a aquecer", dizem.
Hoje fui de propósito pedir uma tosta mista a uma pastelaria normal, com a certeza que não ia demorar meia hora. Confirmo: 15 minutos. Este é o tempo que uma tosta deve levar a ser feita.

quarta-feira, dezembro 17, 2014

Como gerir uma empresa tuga III

Crie castas.
Mostre preferência em relação a alguns empregados aleatoriamente. Dê alguma rotatividade às castas, só para somar à incerteza. Empregados tratados como iguais levam ao nacional-porreirismo e à preguiça.

Como gerir uma empresa tuga II

Fomente a incerteza.
Mude de humor rapidamente e sem aviso. Troque o lugar de alguém sem dizer porquê. Evite a transparência.Empregados com rotinas ganham conforto, levando ao nacional-porreirismo e à preguiça.

Como gerir uma empresa tuga I

Governe pelo medo.
Um ambiente saudável cria conforto, levando ao nacional-porreirismo e à preguiça. De tempos a tempos, de preferência pelo Natal ou antes das férias de Verão, faça um discurso semi-calamitoso que faça os alicerces da vida de todos os empregados tremer.

segunda-feira, dezembro 15, 2014

A prova que estou velho

O Spotify passa um anuncio em que refere que de Bragança a Lisboa são 5 horas de musica.
Quem ouviu Xutos sabe que são 9 horas de distância e faria logo a piada. Mas não. Nem uma referência. Nada. É a versão online de ter as miudas na fila dos bilhetes a dizer "cuidado com o senhor.".

quinta-feira, dezembro 11, 2014

Ninguém os avisa?

O pessoal do Gato Fedorento deve ser o mais jovem grupo de reformados em Portugal. Deixaram-se de macacadas, escrevem nuns jornais, e fazem uns anúncios a telemóveis que me pergunto se alguém lhes acha piada. Estou a vê-los a ter de voltar à Sic Radical a fazer uns sketches low-budget, depois de um dia destes um puto qualquer perguntar de onde apareceram os tipos do anúncio dos telemóveis e se algum dia fizeram outra coisa, uma coisa com piada.

Este Natal vai ser diferente

Este ano em vez de enviar cartões de boas festa e gastar dinheiro em prendas, vou mandar bardamerda todas as multinacionais, empresas, cooperativas, grupos, grupelhos, associações, iniciativas, pessoas, humanos, macacos, bastardos e bipedes em geral que ciclicamente reivindicam esta frase plena de originalidade para convencer que não estão a ser forretas, tentando demonstrar que estão a fazer algo extraordinário quando na verdade estão a poupar dinheiro. Não me fodam. Não querem dar nada não dêem.
Querem dar? Dêem mas cortem no miserabilismo.
Essa conversa foi moda em 2001.

quinta-feira, dezembro 04, 2014

O circo continua, cada vez com mais números, especialmente palhaços. Acho que não se pode esperar diferente vindo de portugueses. Às vezes acho que isto passa por nos vermos comos atlântico e não como latinos, devemos achar que somos muito diferentes dos italianos ou dos espanhois. Tudo é um fado, tudo é sempre dramático. Objectividade é que não, isso não funciona.

sábado, novembro 29, 2014

Só para mudar de tema II ( antes de sair de casa )

Gostava de ter outro blog para escrever sobre Design. Infelizmente não tenho o arcaboiço para escrever a sério sobre nada sério como Design. Sobra-me o estado do país, os taxistas, a falta de imaginação alheia.

Caso escrevesse sobre design, podia deixar esta dica sobre agilidade escrita com pinta: O Design é só mais uma disciplina que tem de conviver com o processo de qualquer empresa diariamente. Resultado de um certo complexo freudiano dada a pouca importância que se lhe atribui neste país, há por vezes o risco de cair no excesso oposto. Como todas as outras disciplinas, o design também é um processo. Não se chega ao fim desse processo com uma iteração. É preciso errar, e só se reconhece o erro depois de uma solução ter tido uso. Não é o ideal e sabemos disso - não há tempo para muito mais - mas não se pode esperar ter uma solução à primeira. Ter essa esperança é que mata um trabalho bem feito.

Depois poderia escrever sobre clientes e dizer que sim, não é suposto nem ele nem o designer encontrarem a melhor solução à primeira e que esta é só um ponto de partida, para ser melhorada. Que seria como quem diz, não vale a pena pedirem 6 soluções para o mesmo problema quando o caminho certo só é encontrado propondo teses e testando-as sobre o processo a decorrer.

Eventualmente escreveria porreiro sobre design, como outros.

Só para mudar de tema

Como em todo o lado, se perguntarem, em Portugal não há racismo.
Hoje estava a fazer zapping e comecei a contar o número de comentadores, jornalistas, locutores, passei para deputados, ministros, depois publicitários, designers, até colegas de escola. Não-brancos contam-se pelos dedos das mãos.

sexta-feira, novembro 28, 2014

Sócrates, mais um dia

Portanto, 4 facções possíveis:
  • Acredito na justiça
  • Acredito na justiça mas não neste caso, porque claramente o processo é uma cabala direccionada contra o PS
  • Não acredito na justiça
  • Não quero saber e já sei que isto não vai dar em nada.
Para tirar isto a limpo, proponho uma experiência: juntem-se todos os casos ( e suspeitas ) de corrupção em todos os partidos nos últimos 12 anos e procure-se uma moda. Caso não se encontre um clara diferença entre partido algum, ( e até dava uns pontos de avanço ao bloco e ao PC, mas temos de ser imparciais )  calem-se.

quinta-feira, novembro 27, 2014

Porno para taxistas

é ler, minha gente.

O taxista também personifica o Portugal mais lúgubre e sombrio, o que rasa o medieval. Trabalha que se desunha entre biscates e part-times. Vive humildemente mas a miséria ocupa-lhe o pensamento. Como passa o tempo a conduzir sozinho, ocupa este pensamento num diálogo consigo mesmo, em que ciclicamente concorda com cada ideia peregrina que tem, refinando-a, como quem afia um lápis até o transformar num couto imprestável. Isto tem efeitos: No facebook, reclama como qualificações a "universidade da vida", a escola que mais o ensinou.
O Correio da Manhã, pronto a vender mais uns números e atento, vende pornografia: Sócrates é pintado como uma boa personagem de Gil Vicente, fidalgo, doutor da mula russa, corrupto, que se enche de vinho "de cara cepa" - aqui um taxista pensa em Papa Figos ou ATÉ melhor -  e comida com estrelas da Michelin. Só não se enche de putas porque acreditam a pés juntos que é maricas.
O CM entrega a narrativa perfeita para a catarse de um taxista que a lê a comer um prego na tasca dos Restauradores forrada a alumínio, ali ao lado do elevador. Fado cruel, - mas mais que justo - Sócrates acaba a comer uma carcaça com manteiga de pacote, numa cela sem água quente.
Genial.

Só falta o brinde do jornal ser um pinheiro especial para amarrar engenheiros e meter-lhes fogo.

quarta-feira, novembro 26, 2014

Já passou

Pronto, vou voltar a discutir o excesso de padarias vintage e hamburguers em bolo do caco. Já percebi o que é que o processo do Sócrates vai dar:
Nada.

Podem largar a televisão, se estão a pensar que alguma coisa vai mudar. O lado positivo disto é que as coisas boas de Portugal também não mudam, pronto.

terça-feira, novembro 25, 2014

Sócrates, dia 1

Como era esperado, há muitos pesos e muitas medidas. Os jornalistas atropelam-se para dizer muito sobre nada, muitas vezes. Outros acusam os jornalistas de serem sanguessugas que quebram o segredo de justiça. Surgem muitos pedidos particulares relativos à forma como lidar com Sócrates: uns pedem-lhe a cabeça numa bandeja, outros numa estaca. Alguns clamam por enforcamento no terreiro do paço. Alguns queixam-se que há um circo mediático. Outros dizem que não é mais do que o esperado, dada a situação. Pessoas clamam pela prisão numa cela pior. Outros dizem que não devia estar em nenhuma. Passos diz que os políticos não são todos iguais - e é verdade - provando que são todos iguais.
O povo é sereno, o caralho.

segunda-feira, novembro 24, 2014

Portugalaland

Um português adulto comporta-se desta forma: Da boca para fora, diz que todos os políticos são iguais. Mas calado espera pacientemente que um dia surja um Dom Sebastião, um Salazar, um Sócrates, qualquer um que tenha a qualidades que ele acha as ideiais ou, bem mais simples, para nem ter de pensar nestas qualidades ideais, que simplesmente diga o que ele quer ouvir.

Um caso de corrupção a este nível revela que afinal não há D. Sebastião, nem Salazar, nem Pai Natal, nem menino Jesus, de uma vez. O que deixa este espaço ocupado por mitos pronto a ser ocupado por algo que ainda não vimos.

Talvez o português perceba agora que não pode esperar por salvadores. E que o caminho é trabalhar com o que tem. Pessoas.


Já comecei um post sobre isto do Sócrates

Não consigo rematar nada porque é muita coisa ao mesmo tempo. Tentei abordagens diferentes: já comecei a abordagem com o Pai Natal. Já escrevi sobre milagres. Já apaguei tudo 3 vezes. Não tenho paciência para escrever sobre isto, é demasiado sério.