Da janela desta sala vê-se o rio. Como em muitos anúncios de imobiliária, só em bicos de pés e em cima de uma cadeira. Alguns prédios mais abaixo, alguém resolveu continuar a ver o rio depois de descer da cadeira: não perdeu tempo e em dias já tinha começado a construir o segundo andar da sua casa. Teria de ser mais espaçoso, para não precisar de uma marquise, - esse milagre português que gera casas maiores de um dia para o outro; a cada ano conheço mais países e não conheço mais países que usem marquises - mais espaçoso que os outros andares mais abaixo. Andaime, cimento, tijolo, a andar.
Mas, aquele tempo que não perdeu devia ter sido empregado a pedir uma licença na camara.
Cresce o andar maior que os outros, como um tampo de balcão de um tasco por cima dos restantes andares quando o fiscal bandido da camara o interpela. Bandido não aceita luvas, pequenas de certeza bandido embarga-lhe a obra.
Tenho a vista para o Tejo como dantes - o andar extra só cresceu até à altura do parapeito das janelas e agora parece-se com algo saído do jardim de Serralves, um monte de chapas onduladas em concha a fazer de telhado, andaimes nas paredes, uma especie de tartaruga ninja de metal ancorada no topo do prédio, a tirar o brilho aos andaimes - só tenho de subir a uma cadeira.
domingo, dezembro 13, 2015
quinta-feira, dezembro 10, 2015
O patronato do ponto de vista do utilizador
Neste país à beira mar plantado, de forte e frondoso catolicismo, isto de ter hierarquias é uma coisa muito bem vista. Pior é quando não se acredita nisso.
Prezado não acredita em hierarquias mas vê a sua necessidade. A ultima coisa onde quereria trabalhar seria numa cooperativa. Não é que goste de mandar ( gosta de ver as coisas bem feitas e à sua imagem claro mas sem se chatear porque já se chateou muito e é um tipo muito cansado e detesta perder tempo com questões pequenas ), mas alguém tem de o fazer. A democracia, como repetidamente digo aqui dentro, é boa para o país, mas não é para uma empresa. Aqui quero decisões.segunda-feira, dezembro 07, 2015
Aquela história do bloco de esquerda e a homeopatia
O Bloco de Esquerda, não sei porquê (mas posso arranjar alguns ditos de taxistas que não ficam muito longe da realidade) quer debater a inclusão da medicina tradicional chinesa e a homeopatia na medicina ocidental (leia-se medicina). Acho positivo que o debate seja público e envolva o máximo possível de opiniões e especialidades.
Dizem-me que tenho uma postura um bocado radical quanto à homeopatia.
Mas até acho que sou tolerante, tendo em conta o que se sabe sobre o assunto.
Não vou perder tempo a refutar todas as ditas vantagens da homepatia, que conheço bem. Para cada refutação, encontraria uma lista de excepções que confirmariam a regra e não convenceria ninguém.Dizem-me que tenho uma postura um bocado radical quanto à homeopatia.
Mas até acho que sou tolerante, tendo em conta o que se sabe sobre o assunto.
Também não vou perder tempo a listar fontes de informação fidedigna porque antes teria de apontar como encontrar fontes fidedignas, já que a maior parte da informação online é enviesada.
Poupo-me também o tempo de separar "bons profissionais" de "maus profissionais", porque rapidamente alguém traria esse argumento para a mesa.
Nota: Prezado teve um pai céptico e cresceu tendo como vizinho um medium astrólogo muito famoso e que atendia muitas celebridades e trazia muitas curas e milagres. 20 anos de contacto diário com os seus pacientes e seguidores fizeram com que, sem hesitações, meta no mesmo saco todos os métodos pouco cientificos ou minimamente dúbios: o saco do lixo.
*publicações revistas e aprovadas em revistas cientficias de referência são a unica fonte de informação fidedigna.
quinta-feira, dezembro 03, 2015
Demorou uns anos, mas até percebo
Vejo as reacções ao fecho do jornal I e do Sol e vejo-me.
Fui o cliente típico do I (o Sol nunca o comprei*): gosto muito do jornal, comprei-o com alguma regularidade quando foi lançado, entretanto nunca mais comprei jornais**. Quando, de tempos a tempos, sei que vou andar de autocarro ou comboio e tenho tempo para ler notícias mais a fundo***, sou capaz de o comprar.
Isto para dizer: O meu pai tinha razão, um jornal é um negócio como outro qualquer que precisa de ter vendas (e se não é para ser gerido como tal, tem de deixar de ser pago por empresas com accionistas e passar a operar num modelo cooperativista, crowdsourced, banco de horas, voluntariado, o que for necessário para manter a informação livre de agendas).Fui o cliente típico do I (o Sol nunca o comprei*): gosto muito do jornal, comprei-o com alguma regularidade quando foi lançado, entretanto nunca mais comprei jornais**. Quando, de tempos a tempos, sei que vou andar de autocarro ou comboio e tenho tempo para ler notícias mais a fundo***, sou capaz de o comprar.
O marinheiro que hoje teve a tarefa de implodir a redação, é só um mensageiro.
* Por motivos de Saraiva.
** Telemóvel com 3G, 90% das notícias que leio estão online.
*** As notícias são tão superficiais que o I já é jornalismo de investigação, é isso.
quarta-feira, dezembro 02, 2015
É o Natal, aquela altura do ano
Vamos lá ver: Um velhote que finge a sua morte para ter um jantar não é comovente, e se isto comove alguém, digo eu, é só pela combinação inteligente de planos solitários e lentos, filmados à chuva com aquela música em tom de este-é-ultimo-dia-da-tua-vida.
Se isto é comovente, é-o tanto como qualquer música do Nel Monteiro em homenagem à sua santa mãe e aos velhinhos em geral ( e não são poucas, podem comprar no iTunes títulos como "É duro ser mãe", "Valsa da Terceira Idade", "É duro ser velho", "é duro ser mãe", "Oitenta Flores (Minha Mae Querida)" ou "Retrato Sagrado" ). Não é a forma que define uma história como comovente: é o conteúdo.Um velhote alemão que finge a sua morte só para ter um jantar de natal com a família pode mais facilmente ser o começo de uma anedota ou, retirando a suspensão voluntária da descrença do caminho, um episódio macabro de um alemão auto-centrado em infracção contra a lei.
Nel Monteiro deveria reclamar. Há décadas canta este mesmo tema apenas para ser sempre classificado como bimbo.
Nota: Ao comprar uma música do Nel Monteiro no iTunes, estará a notificá-lo da sua compra por email. Este email será o primeiro contacto que Nel Monteiro terá com um email. Obrigado.
Não és tu, sou eu.
Há uma coisa que não consigo perceber sempre que leio a Helena Matos: É uma opinião política válida - mesmo que muita gente não concorde - ou é só ressabiamento? Não consigo distinguir.
Paralelismos obscuros
Um Leão está para a publicidade como uma ronda de investimento está para uma Startup.
terça-feira, novembro 17, 2015
Depois de Paris
Por acaso esta semana ainda não ouvi muita gente dizer que começou a 3ª guerra mundial.
O que é bom, porque já ouço essa conversa desde os anos 80 e já enjoa.
https://www.youtube.com/embed/1pkVLqSaahk
https://www.youtube.com/embed/1pkVLqSaahk
sexta-feira, novembro 13, 2015
Uma semana de instabilidade
Graças ao youtube (finalmente a net é usada para mais do que ver gatinhos), toda a gente pode ver os videos que mostram o que qualquer taxista vos dirá: os políticos são todos iguais. É claro que é preciso voltar até 2011 e isso é olhar para trás, o que não ajuda senão a descobrir a pólvora. Também não ajudam as contas que tenho visto, com variáveis como "73% das pessoas das pessoas não votaram no PS por isso devem estar de acordo com o PNR", "metade das pessoas que votaram no PS não o querem no poder e eu sei que isso é verdade" ou "eu não votei neles, por isso não devem ir para lá", que só servem para atirar areia aos olhos.
Portanto: Para a semana vou viajar, adivinhe-se o quanto estou preocupado com isto.Novidades importantes: Saí do fim da cadeia alimentar, profissionalmente falando. Traduzo: Subi um passo numa hierarquia, o primeiro. Como é que isto interfere no espirito de um anarco-sindicalista de apartamento é algo que se vai ver.
quinta-feira, novembro 12, 2015
Lá no bairro
Moro num bairro um pouco gentrificado, rodeado de bairros mais antigos e cheios de movimento. Faço a vida aqui à volta. Nos cafés, restaurantes e táxis apanho com um discurso que é próprio de uma democracia jovem como a nossa: uma ideia ingénua da política como um instrumento abstracto que não se sabe bem como opera. É mal vista, até ( lembro-me de em casa me dizerem que "dantes não se falava de política" ).
Se as políticas deviam ter a eficácia de um bisturi, no balcão da pastelaria ele parece que é usado na ponta de uma vara de bambu. Dizem que votam no Portas mas abortos, cada um sabe de si. Acham que o Passos fez o que tinha a fazer, mas o Jerónimo de Sousa diz coisas que sao muito certas. Sindicalistas nem morto, mas tirarem-me a pensão nem pensar.
Se as políticas deviam ter a eficácia de um bisturi, no balcão da pastelaria ele parece que é usado na ponta de uma vara de bambu. Dizem que votam no Portas mas abortos, cada um sabe de si. Acham que o Passos fez o que tinha a fazer, mas o Jerónimo de Sousa diz coisas que sao muito certas. Sindicalistas nem morto, mas tirarem-me a pensão nem pensar.
Talvez este ambiente de tensão dos ultimos dias sirva para perceber melhor que na política há causa e efeito.
quarta-feira, novembro 11, 2015
A ingenuidade
O assassinato de carácter de António Costa cresce, nas redes sociais. Encontram-se réplicas similares vindas do outro lado da bancada, revelando que Passos não é melhor. O mesmo para Portas. O mesmo para os artistas do costume.
Passando ao lado disto tudo, Jerónimo de Sousa e Catarina Martins. Para quê procurar pés de barro quando já se sabe o problema? São comunas! As fotomontagens com imagens da Coreia do norte bastam. Drama de faca e alguidar
Depois de ter ouvido as reacções aos acontecimentos de ontem - o governo caiu, o que nao me aquece nem arrefece (bom, aquece um pouco) - reparei num certo tom familiar.
Depois ainda vi aquelas comparações com a Coreia do Norte, o PREC, o perigo vermelho, as hilariantes manifs de direita, que merecem um post exclusivo e longo, etc etc. Também somos assim, burros.
terça-feira, novembro 10, 2015
A questão é esta
Acreditar que um político vos vai melhorar a vida é como acreditar no Pai Natal.
Mas lá que isto vão ser tempos animados, vão.A alienação
Esta conversa dos telemóveis como elementos do mal já enjoa. Uso telemóvel compulsivamente. Mas isso não é de hoje e não interessa o nível da tecnologia.
Quando me ofereceram um Spectrum, há umas décadas, lembro-me como se fosse hoje o meu pai dizer-me em jeito de aviso - aquele investimento numa treta tão cara tinha de valer a pena - "Quero ver que interesse tens nisso. Ainda vai ficar arrumado num canto".
Antes fosse.
segunda-feira, novembro 09, 2015
Sobre política, o fim de semana e o futuro
Foi com satisfação que ouvi Lipovetsky no fim de semana, no Porto.
Descobri-me Lipoteskiano no meu optimismo caótico anti-new age espiritual de origem sindicalista quando pude confirmar que o mundo tem uma solução em que todos podemos participar.
É também com optimismo que vejo debates aguerridos entre deputados de esquerda e saudosistas pré-muro de Berlim, a fazerem-me lembrar as múmias de extrema direita americana que sempre que têm de fazer uma comparação, usam a alemanha nazi ou e o cliché pseudo-iluminado "a história é um pendulo".
A história não existe, é uma construção e só lembra o que interessa.
Se estão preocupados com o governo de esquerda, esqueçam lá isso. Políticos já só nos podem dar alegrias.
Descobri-me Lipoteskiano no meu optimismo caótico anti-new age espiritual de origem sindicalista quando pude confirmar que o mundo tem uma solução em que todos podemos participar.
É também com optimismo que vejo debates aguerridos entre deputados de esquerda e saudosistas pré-muro de Berlim, a fazerem-me lembrar as múmias de extrema direita americana que sempre que têm de fazer uma comparação, usam a alemanha nazi ou e o cliché pseudo-iluminado "a história é um pendulo".
A história não existe, é uma construção e só lembra o que interessa.
Se estão preocupados com o governo de esquerda, esqueçam lá isso. Políticos já só nos podem dar alegrias.
terça-feira, novembro 03, 2015
Por onde começar?
Um ministro - não mais que um taberneiro ou um taxista, é certo - diz que Deus nem sempre é amigo. Ora, eu conheço Deus. Deus é sempre amigo. Deus é especialmente amigo quando ajuda a verificar PDM's e a corrigir - grátis - o planeamento urbano de Albufeira.
Calvão da Silva, retirado vivo do díluvio original e posto no governo, veio lembrar-me o tempo em que seguia religiosamente a actualidade política, nomeadamente os bons tempos da indecisão de Guterres e do épico Santana Lopes. Calvão da Silva traz também para Portugal aquele absurdo candido e pacóvio que me motiva a seguir a política americana, onde não há pejo em dizer o que vai na alma, por pior que soe.quarta-feira, outubro 28, 2015
Parem lá com isso 10 minutos
Eu sei que a culpa é da palavra escrita.
O Verbo é forte, mas escrito é mais forte ainda. A impressão, ainda que digital, ferra as palavras de outra maneira no nosso diminuto e permeável cérebro. O que seria um pequeno apontamento a meio de uma conversa se estivéssemos na mesma sala, frente a frente um silvo no meio de palavras importantes, uma brisa numa floresta, transforma-se em lei na pedra depois de escrito
Assim acontece com esta moda que não é de hoje, a moda das princesas.
Pais: Há filhas (e filhos), que saiba, desde sempre. Eu percebo que os vossos rebentos sejam mágicos. Eu também sou um rebento mágico. Felizmente a minha mãe guarda essa informação para si até encontrar uma vizinha, também com um rebento mágico, e ambas partilham e comparam o quão mágicos são os seus rebentos em várias ordens de grandeza quando se encontram ao pé da padaria. Digo isto porque gostava que a internet - a minha, pelo menos - não fosse uma aldeia com gente que fala dos seus filhos como se ninguém estivesse a ouvir, mas antes uma cidade com carros que voam e motas a jacto. Uma cena moderna e tal.
quinta-feira, outubro 22, 2015
segunda-feira, outubro 19, 2015
A imagem de hoje
Este fim de semana, após meses de pressão, usei um uber. Não tenho nada a apontar. Mas vou continuar a usar taxis, também.
Um taxi é um serviço de conversação temporária com um humano, como o uber.
Num uber, a tecnologia tira o atrito do serviço e torna-se o tema da conversa.
Num taxi, o taxista aumenta o atrito do serviço e torna-se o tema da conversa.
Eu gosto de experiências genuinas. Por isso é que vou a tascos e restaurantes de beira de estrada que tenham toalhas de papel. Eu poder desenhar na mesa enquanto como é o meu luxo.P.S. 1: Dito isto, os ubers vão vingar à conta das mulheres, que não acham piada à conversa taxistas.
P.S. 2: Paguei tanto como se tivesse ido de taxi.
terça-feira, outubro 13, 2015
Pequena lista de referências que tenho encontrado sobre um possível governo de esquerda a ser formado.
"Isto é o House of Cards."
"Isto é um golpe de estado, não é?"
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