quinta-feira, novembro 29, 2018

O Natal

Se quero oferecer alguma coisa, tenho de me despachar.
Se quero oferecer, tenho de comprar.
Comprar é na Amazon. Mas não posso, porque são uns chulos.
Ir a centros comerciais é para masoquistas, também não posso.
Lojas pequenas não têm nada de jeito.
A vida portuguesa tem canecos de barro a 10 vezes o que valem.
Supermercados só têm coisas que já nem se encontram na Amazon.
A Worten é a mesma coisa que os supermercados. Parece um museu.
O Media Market parece uma Worten aos berros.
Oferecer coisas-feitas-à-mão é no fundo dar dinheiro a alguém, porque o que é feito à mão parece sempre que é feito com a boca por refugiados sírios de 3 anos e não é para usar.
O Natal tem de ser reformado.

segunda-feira, outubro 22, 2018

Um exemplo prático do que pode estar aí à porta

A minha avó, que era muito boa pessoa e que teve uma vida tramada, com a qual nem sempre lidou da melhor forma. Na suas opiniões muito breves e claras sobre a vida, era claro que era digamos, eh na melhor das hipóteses, reaccionária. Mas como censurar alguém que, apesar disso tudo, fazia pastéis de bacalhau como ninguém?
Ela nunca teve outra opinião, simplesmente era muito reservada quanto a isso, como era habitual um português ser.
Acho que sempre votou PSD. Vá lá.

Temos pena, já vai tarde.

Um professor de design que tive há muitos anos, dizia frequentemente, sobre a televisão, que as pessoas tinham de passar a aprender a ler imagens, assim como liam textos. O Professor tinha razão.
Hoje tenho de assistir a toda a gente a partilhar imagens carregadas de ideologia - é o que é, não há outra forma de explicar isto - sem perceber que o fazem. Ou se calhar percebem, eu é que não consigo acreditar que sejam tão grunhos.

Agora em português de rede social:
ESTE NOJO DESTES TIPOS que bateram nos velhos, COMO É QUE EU SEI se eles realmente bateram em alguém quando só vi uma foto (é bué facil tirar fotos, toda a gente tem telemovel) de 3 gajos no chão, sem ser confirmada por ninguém, já foram apanhados. Agora: A policia não pode fotografar-me e meter a minha foto na net por dá-ca-aquela-palha. Imagina que passar um vermelho, a policia mete-te a foto na net. Pagas a multa na mesma ou aceitas que a foto fique online? Eu cá não quero a minha foto online. E não digas que nunca tiveste uma multa, calha a todos.
Depois para convencerem as pessoas que não estavam a querer matar os 3 tipos à porrada, metem umas fotos que sacaram da net de uns velhotes da irlanda e do brasil que foram espancados por outros tipos quaisquer, do outro lado do mundo. Man, isto é tipo caça às bruxas, vale tudo desde que no fim a bruxa morra, ou vai ao fundo ou é queimada.

Agora em português de rede social, para twitter:
A polícia não pode divulgar fotos de ninguém a não ser que estejam em fuga. wtf as fotos dos velhotes afinal foram tiradas da internet. Lol onde é que ficam os tribunais no meio disto, já não são precisos?

sábado, outubro 20, 2018

Cuidado Casimiro

Há uns anos sou capaz de ter escrito sobre o excepcionalismo tuga, uma crença obscura baseada no excepcionalismo americano - esse com efeitos conhecidos por todos - que nos colocava num estado perpétuo de ignorância bondosa. Infelizmente tenho de reconhecer que essa teoria morreu e que somos tão maus como os outros, apenas mais tarde e numa escala mais maneirinha. Fujam do Twitter e do facebook. 

segunda-feira, outubro 08, 2018

Temo pelo futuro

Sinto uma obrigação social de usar taxis, assim como comer em tascos e beber copos nos ultimos bares manhosos do Cais do Sodré.
Protejo um estilo de vida. É como proteger o cante alentejano, a janela do Convento de Cristo ou os travesseiros da Piriquita, mas acusam alguns, menos glamorouso.
Eu uso taxis todas as semanas, redistribuindo o dinheiro que podia gastar num carro e em gasolina, mas onde gastaria a minha paciência. É a minha versão privada de trickle-down-enconomics, no fundo. É parecida com a original, mas envolve várias dimensões para além da económica: há também uma transmissão de conhecimento, de ignorância e de poesia de andaime. No fim, fico eu a ganhar, como na teoria original.
Mas infelizmente, os taxistas estão a deixar de ter piada.
Estão a usar aplicações. São a única parte dentro de um taxi instalada depois de 1995. Como tal distraem-nos, tomam-lhes o foco. Perdem-se. Esquecem-se de ligar o taximetro. Esquecem-se do essencial, falar doutra coisa que não a aplicação - para isso tenho os gajos do Uber - e sofrem.
A pouco e pouco, fui perdendo os longos diálogos com os taxistas onde aprendia sobre a sua mitologia, os ritos, as celebrações: as histórias de juizes poderosos de lá da terra. Dos brutos GNR's do tempo da outra senhora, da tropa, do ultramar e de Lourenço Marques-nunca-Maputo e as histórias de gajas, sempre.
Ver as redes sociais a discutir Bolsonaro e o Ronaldo e deixar de denunciar a apropriação do que era apenas do domínio dos taxistas é grave. É mais um ataque a quem vê o seu estilo de vida ameaçado todos os dias. A opinião sobre putas que antes ouviria de um taxista entre um serviço de Santa Apolónia até Santos, ouço-a agora no conforto do meu lar, no telemóvel, vinda de uma dona-de-casa amiga da minha tia ou de um tipo que até estudou com quem trabalhei em 2001 e que parecia normal. Nunca mais ouvi um taxista a apontar como o problema sexual da gaja do carro da frente lhe afecta a condução e a solicitude com que ele o resolveria de bom grado. Muitos, como eu, estão a deixar de debater estes temas com os taxistas e a afastarem-nos do progresso alcançado na ultima década, quando as putas e stripers dos reality shows portugueses passaram a ver mulheres-poderosas e mulheres-independentes. Ouvir um taxista perguntar "o que acha da Daniela? aquela mulher leva tudo à frente!" é histórico. Tudo isso foi fruto do trabalho emocional feito com taxistas, diariamente, por activistas como eu, prontos a diminuir a distância gigante que separa o banco da frente do banco de trás e a desafiar o status quo e a perguntar: tão ladrão é o que vai à horta como o que fica à porta? se aceitar fazer um serviço a um preto, é mais ou menos prejudicado do que se o fizer a um cigano? um gajo rico rouba mais ou menos que um pobre? As putas devem passar recibo ou não? Se um taxista não passa recibo, está a fazer como as putas?
É por isto que apelo à razão e em concreto, à contenção: se as redes sociais promoverem temas controversos e opiniões politicamente incorrectas, lembrem-se onde e a quem pertencem: dentro dos táxis, com os taxistas.

Ashtags da semana

#santo #deusnocomando #putas #oqueelaqueriaseieu #armadilha #inveja #goldigger #feminazi #CR7santificadoja #cr7perseguição #pobrededeus #conspiração #realmadridtemdedonisto #fakenews #p#bolsonojo #bolsonazi #venezuelanunca #petralhanao #elenunca #queputedosenhoralfredo #meeto #notallmen #notmespeciallynotme #queroveromundoaarder

segunda-feira, setembro 24, 2018

Tudo gente séria

Apanho um Uber, por causa da greve dos taxistas. Pelo caminho, o condutor do Uber começa por descrever o seu modelo de negócio, usando todas as plataformas online. Ao contrário dos taxistas, uns generalistas, os condutores da Uber só falam de negócios. É uma rotina que têm. Explica-me como todos os serviços fazem lucro de forma eticamente reprovável e demonstra-me como os condutores as pressionam de forma concertada - sem nunca lhe chamar uma greve - para melhorar as condições contratuais. Ponderado, conta-me como é honesto enquanto todos os outros não o são, numa versao educadas desta rotina, famosa por ser contada por qualquer taxista em qualquer viagem que faça. Fecha a conversa contando que já tinha sido taxista e no mesmo fôlego descreve que esquema ilegal usava para fazer mais dinheiro. 

quinta-feira, junho 28, 2018

Isto não está abandonado

No dia em que soube que a Pastelaria Suiça vai fechar, tenho de pensar em São Francisco. Há tempos, numa cidade que tem uma falta crónica de casas, um laundromat - uma lavandaria - chega às notícias porque é proposto que seja tido como de interesse histórico para impedir a construção de um prédio de habitação. Só consigo entender o valor estético do laundromat. Fica bem em filmes americanos, tem uma luz interessante, espaços para diálogos mais intimos e honestos dos que um bar ou um elevador oferecem. Ninguém está a beber, há um tempo para gastar, tudo está à vista: as pessoas e a sua roupa suja. Encontram-se as outras pessoas do prédio, da vizinhança.
A pastelaria Suiça é mais antiga e interessante que o laundromat mas, parece, tem o carisma de um pneu. Fim.

terça-feira, maio 15, 2018

Ando distraído com isto

Estava a ver as notícias vindas de Israel, da Palestina, onde não se passa nada
- a grande novidade é ter um presidente americano que (é burro e) tem o apoio de evangélicos (que por acaso são anti-semitas e têm a certeza que o papa é o anticristo) e que vêem a inauguração da embaixada em Jerusalem (decidida unilateralmente do acima referido burro) como um sinal (positivo) da proximidade do arrebatamento e da segunda vinda de Cristo (para alguns) (judeus não incluidos) - de novo.
Estava a lembrar-me do meu pai e dos debates à mesa do jantar e dos argumentos que ele apresentava nos anos 80 e de como era díficil apoiar um lado deste debate incondicionalmente. Passados 30 anos da primeira intifada, os argumentos, por mais internet, twitter, videos e fotografias que os acompanhem, não mudaram nada.

segunda-feira, março 26, 2018

Vão para o trabalho

Os artistas chateiam-me mais e mais. É da idade e do trabalho. A idade tira-me paciência para aturar gente que não se esforça, o trabalho tira-me paciência para aturar gente que me faz trabalhar. Por exemplo, o Markl fez uma série que lhe deu bastante trabalho e está muito feliz com ela, pelo que leio. Eu dei-me ao trabalho de ver 2 episódios e bastou-me. Não tenho de me dar mais ao trabalho, aquilo é fraquinho. O tempo que perdi a trabalhar a minha falta de paciência para diálogos americanizados e maus actores cansou-me. Para me cansar, o que é que já tenho? Trabalho, exacto.
- ah, mas queres consumir sem esforço?
Quero. Uma série de tv sobre eletrodomésticos, a infância do Markl e LP's não pode estar à espera que me canse com ela. Para isso tenho as notícias.

quinta-feira, março 22, 2018

O mito da estupidez bondosa

Humanos que acreditam numa conspiração maquiavélica da industria farmaceutica mas não acreditam na conspiração maquiavélica dos homeopatas, hosteopatas, naturopatas, acupuntores e todo o pessoal do género - os piores são aqueles que dizem "mas também sou enfermeiro, as duas medicinas são compatíveis" -  a vossa confiança nestes profissionais é fascinante.
Nunca pensei viver tempo suficiente para voltar à idade média de forma voluntária, sempre achei que ia haver um cataclismo que nos obrigaria a isso.

sexta-feira, março 02, 2018

Se calhar não sou eu, mas

Ando um bocado cansado de ouvir os outros. Os outros são o inferno, como disse o outro num adágio conhecido. Já se sabe. Os outros andam a ver se me cansam, comportando-se da forma típica que as pessoas que não são eu se comportam. Têm demasiadas opiniões que não a minha, comportam-se de forma pouco minha, dizem-me coisas que eu não diria, pedem-me coisas que eu não pediria. Pior que tudo, os outros não só são muitos, são todos.

sexta-feira, janeiro 19, 2018

Não comam cápsulas de detergente, uma ode à Unilever

Não comam cápsulas de detergente
Não comam minha gente
Não comam cápsulas de detergente
Não bebam shots de diluente
Não façam sandes de Skip
Não lambam Cif do bidé
Não façam Nutella de 3 em 1
Não comam de pé
Não tomem abrilhantador Sun
Não emborquem Vim
Não comam cápsulas de detergente
Não encham até ao fim
Não comam minha gente
Não barrem torradas com Omo
Não comam cápsulas de detergente

De manhã

A parte boa de trabalhar uma manhã num café é que, além de me poder isolar para pensar noutras coisas, posso apanhar uma senhora que está há meia hora a contar tudo o que está mal no mundo e percebe-se que investe algum tempo a investigar isto, porque já passou por advogados, políticos, internet, os jovens, os impostos, o governo, a polícia, as drogas e diversos outros temas, tudo calibrado pelo Antigamente, essa bitola dourada que deve andar aí a ser partilhada num GoogleDocs entre taxistas, reformados e ressabiados.

quinta-feira, janeiro 04, 2018

Estava aqui a adiar o que tenho para fazer hoje

Lembrei-me de uma entrevista de trabalho numa agência de Lisboa, daquelas grandes e importantes, onde apanhei 2 labregos que, pelo jeito, tiveram um impacto positivo na minha vida: depois deste episódio, perdi a paciência para as agências de publicidade e fui para outras bandas. Dizia: deram-se ao trabalho de me chamar, de marcar uma entrevista no seu escritório artsy para apenas perder o meu e o seu tempo porque quiseram armar-se em espertos o tempo todo e fazer uma macacada de uma entrevista em que deviam ter acabado de fumar qualquer coisa e que me faz lembrar aquele silêncio incómodo de quando apanhei mais de 3 argumentistas na conversa a masturbarem as piadas uns dos outros e a exibir a sua inteligência muito bonita e luzidía mas claro fora-da-caixa também.
Pensando bem, não devem ter fumado nada. Era mesmo assim.

sexta-feira, dezembro 22, 2017

Um 2018 analógico e sustentável

Isto da internet e de viver no futuro é tudo muito bonito até ao momento em que se percebe que os malditos humanos resistem a obedecer a uma app e que a entropia ganha a todas as outras leis, por mais taxas ou regras estas impliquem.
Ainda que não viajando muito, 2017 foi o ano em que nao usei Airbnb's. Diz que usar hoteis ou hostels é um pouco mais caro e tem menos mobiliário pseudo-hipster, mas tudo é o que esperamos. Não há quartos improvisados em vãos de escada e chego ao quarto com a cama feita. Além disso, pequeno almoço continental.
Também não usei Ubers. Depois de um episódio algo bizarro com a polícia, desisti. Resolvam-se. Se é legal, é legal. Se não é legal, não é legal. Usaria na mesma, como uso os chineses ilegais que toda a gente usa. Mas este rame-rame fez-me desistir.
Também deixei de fazer as compras de Natal online. As vantagens de viver numa cidade que em meia dúzia de anos se tornou uma capital europeia não podiam ser só as rendas para meter toda a gente a morar na margem sul ou o colapso da rede de transportes públicos. Finalmente, pode-se encontrar qualquer coisa à venda em Lisboa. Por isso passei a sentir-me estupido ao pedir para me entregarem uma torradeira vinda da Tailandia em 10 meios de transporte diferentes. Como o universo dá voltas, acabei por fazer as compras como faria em 1997: fui à Baixa.
Bom Natal e até para o ano. Depois explico como é impossível ter internet e um modo de vida sustentável ao mesmo tempo.

quarta-feira, dezembro 20, 2017

Processos deste ano

Keynotes com o Keynote, documentos com o Paper, filmes com o iMovie, notas com o Keep, calendário com o Google, email idem, conversas com o Slack, Whatsapp, Messenger, Gchat, sms's é raro, chamadas são mais, desenho com o Sketchbook Mobile, arquivos com GDrive, Dropbox, scans com Adobe Capture, animações com o Principle, maquetes com o Sketch, Twitter só para ler, blog posts via email.

segunda-feira, dezembro 11, 2017

Taxismo, novamente

Na universidade, uma professora muito beta dizia que só andava de taxi porque conduzir transformava as pessoas para o pior. Dizia ela que, ao volante, as pessoas mais educadas que conhecia se tornavam em animais. O facebook (e afins) tem uma função semelhante, tornando qualquer incauto num taxista. Assim que têm acesso a uma caixa de comentários pública, não há nada a fazer. Há ali algo fatídico, não acontece com mais nenhuma caixa de texto, eu escrevo emails e pareço um tipo normal, escrevo num blog e tento parecer um tipo normal, mas escrevendo numa caixa de comentários, o vocabulário retrai-se, sai tudo ao lado, ainda aceito uma resposta mas retorquir à segunda já implica insultos no pior dos casos, ou no melhor, um link para um sítio qualquer na internet que me dê razão.

Para memória futura, o tema de hoje partiu do problema de haver gente que faz voluntariado/caridade e não é honesto.

segunda-feira, dezembro 04, 2017

O café do monte vai fechar

Em tempos, tentei ganhar o hábito de ir ao Café do Monte. Agora vai fechar. Digo tentei porque era um gosto adquirido. Assim como se aprende a gostar de gin tónico, de cerveja stout, de dormir sobre pedra ao relento, ou a aguentar viver num mundo onde o Gustavo Santos tem seguidores, podia aprender a esperar 45 minutos por uma tosta. Rapidamente desisti de aprender. Mas as tostas eram boas.