quinta-feira, janeiro 20, 2022

História da carochinha para depois das eleições

A minha avó contava que uma senhora (mais ou menos da idade dela, parecia-me) que andava pelo bairro a pedir era, na verdade, rica. Pedia mas tinha várias casas, andares, ali no bairro. Eu perguntava sempre como é que sabiam disso. Nunca tive uma resposta clara. Poderia ser verdade? Claro que sim. Poderia ser só algo que terá acontecido de forma parecida, noutro sítio ou noutro tempo mas que por ir de encontro a realidades que temos dentro de nós, se torna também real ali no bairo. Já não é só uma narrativa ou um conto com que nos relacionamos. Até que deixa de ser importante se é um caso real ou não. Só tem de corresponder a um sentimento real. E a indignação da minha avó era real: ela não gostava de se sentir enganada.
Dava-lhe 3 ideias, então:
Ou a senhora tinha problemas na cabeça e era a forma que tinha de lidar com eles.
Ou a senhora era mesmo rica e tinha andares e pedia, e isso era lá com ela, só dá quem quer. Ou a senhora não tinha andar nenhum.
E a minha avó, nada. Não havia forma da indignação se ir embora. Mas se eu tivesse tido a vida que ela teve, também ficava assim indignado
Corolário: Quando se faz política de agitar as pessoas que têm motivos para andarem indignadas contra outras que outros tantos motivos têm, não andam a fazer mais que baralhar e enganar a minha avó que era muito boa pessoa mas que também tinha dias.

E é por isso que aqui no tasco, este ano, se vota PS.

terça-feira, janeiro 11, 2022

Como odiar fantasia

Vamos lá ver: Eu gosto de ficção ciêntifica, mas detesto fantasia.

Ou diz-me pouco. Fantasia é própria de miudos parvos. Ou pronto, é só uma coisa de miudos. Parvos.

Diz-se do cinema que é uma experiência social. Assiste-se a uma história em grupo. A presença dos outros muda a maneira como a história é sentida. Ver em grupo um foguete movido a sonhos, por exemplo, é sermos colectivamente chamados de estupidos. Por causa de ideias destas é que há telefilmes.

Um tipo tranca-se em casa e sozinho, com o realizador, vive a tristeza de ver um filme que foi feito para ninguem ver.

 O final do Interstelar tem um final semelhante a descoberta que o foguetão é movido a sonhos. Graças a isso, dá uma guinada nos ultimos 15 minutos que estraga o filme todo.

Depois, aparece aquela campanha do 5G. O Ronaldo a andar de mota simultaneamente com o Miguel Oliveira. E eu fico à espera que me mostrem como é que as motas andam sincronizadas. Estão a vender isto como algo que se passou na realidade. Fico à espera. Se eles partilham instrucções entre eles. Se as motas se auto-equillibram. Se têm servomotores na direcção. Mas não. Dão a entender que uma está ligada à outra, que é rápido, que é instantaneo, que são interdependentes mas nunca usam o verbo conduzir. 

 Porquê? porque as duas motas estão ligadas por sonhos. O máximo que o Ronaldo e o outro gajo fizeram foi enviar um sms ao outro. Detesto fantasia.


domingo, janeiro 02, 2022

LImpar a casa virtual em 3 passos

Passo 1

Acho que já se passou mais de um ano, mas hoje dei por isto: Tinha no Facebook um daqueles amigos-de-amigos, alguém por quem tinha algum respeito, a revelar-se um racista de primeira água. Depois de andar a evitar confrontos, bloqueei-o. Que boa decisão que fiz. Este é o passo 1 para limpar a casa. Se vieram pela dica, é isto. Se querem perceber porque aturei isto, aqui vai.

Perguntei-me depois: porque demorei meses a fazer isto?

Perguntei-me algum tempo o que estaria a passar-se. Que razões teria este tipo para ser assim? Qualquer menção a etnicas, pobreza, subsídios, era uma desgraça. Um chorrilho de preconceitos, mentiras, ódio. Este tipo tinha estudado em boas escolas, tem um bom emprego, aparentava ser um membro útil da sociedade. Como ser racista, se até é um tipo educado e com dinheiro? Lamento perceber isto, mas é um preconceito meu.  

E eu, que acho que sou um tipo que tem o bom hábito de duvidar de tudo e que não aceita ideias pré-aquecidas, caiu-me a ficha: Perdido, afinal acreditas em mérito. Tenho de me curar.


segunda-feira, dezembro 13, 2021

A esperança renasce todos os dias dentro de um taxi

O taxista anti-capitalista que apanhei no outro dia deu-me esperança. Afinal ainda há quem ache que os políticos são todos iguais, mas que há uns mais iguais que outros. Ainda há taxistas activistas pró-vacinas. O mal do mundo, disse ele, são oa jornalistas da CMTV, que "protegem os ricos". Não sabem como é reconfortante, a meio de uma conversa sobre Covid, poder mentionar "aquele burro da gripe" e o taxista responder "está a falar daquele filho da puta do Bolsonaro?". Finalmente, os nomes dos bois. A lucidez ainda é possível, até para taxistas sem sono depois de turnos de 12 horas. Como é hábito, o homem não me queria deixar sair mesmo depois de ter pago só porque eu duvidei que as vacinas, como ele disse, eram feitas com "soro fisiologico de cavalo". 

 Ele disse que era só ir ao google. É quase verdade! É plasma do sangue de cavalos vacinados contra o Covid. Mas é mais dizer só "soro de cavalo" e chocar toda a gente. Afinal, o tipo ainda é um taxista.

terça-feira, dezembro 07, 2021

Viva o team-building

Lá no trabalho há cultura. Nunca me ensinarem cultura de trabalho na vida.
Em casa não era um tema. Na vida aprendi mais com sindicalistas do PC. No trabalho, nada.
Em todos os sítios que trabalhei, a entrada nesse trabalho foi indicarem-me onde me sentava e uma conversa de 10 minutos, essencialmente à volta de como se arrumavam ficheiros - 20 anos depois, ainda nao aprendi a arrumar ficheiros - e posso garantir que é preciso ensinar isso, senão há gente como eu que passa a vida sem os arrumar, mas pelos vistos todas as empresas me falharam nisto até hoje. Para mim arrumar é fazer pastas novas chamadas "última pasta".
Bom, a cultura.

Agora que a cultura no trabalho é promovida, celebrada e pensada (até por mim), posso dizer que falta muita cultura de trabalho. Somos mauzinhos nisso. E não é que queira trabalhar mais. Antes pelo contrário, quero trabalhar menos mas fazer mais. Para fazer tudo e chegar ao fim do dia sem culpa de não ter feito mais.

Quanto ao team-building, cada vez tenho menos, graças a deus.