segunda-feira, janeiro 14, 2019

Experiência sensorial

Imagine-se uma colherada de um preparado que, antes sequer de ser provado, já cheira ligeiramente a lixo, de longe, mas que se ignora voluntariamente. Lixo doce. O gosto, que aos poucos se instala na boca mas que já habita o nariz e o céu da boca à conta do cheiro, oscila repetidamente entre algo doce e algo amargo, cruzando-se com as minhas memórias trocadas de cheiros doutros sítios, onde tanto me lembro do inclinar sobre um caixote do lixo cheio de cebolas no verão e o raspar de um grelhador com restos de carne carbonizada, tudo a repetir-se num movimento pendular em cima da minha lingua. Às vezes, parece que tenho borras de café na boca durante meio segundo. Mais uma volta e o sabor doce, parecido com banana, vem mais ao de cima, anulando um pouco o sabor a queimado e dando mais destaque ao sabor a cebola, ficando aos poucos um sabor até agradável, pode dizer-se bom, mas só enquanto não exalo o cheiro disto pelo nariz, que aviva o sabor inicial que já tinha esquecido, como quem aspira uma baforada de fumo de uma lixeira queimada a céu aberto. Também há uns tons de cheiro a presunto. O sabor é bom, parece durante um bocado. Mas assim que passa, fica só o cheiro a lixo. Isto não é uma metáfora.

sexta-feira, janeiro 04, 2019

Os programas da manhã não ficaram maus de repente

A vida da maior parte das pessoas que conheço é demasiado ocupada para perder tempo a ver os programas da manhã.
Para comprovar como os programas da manhã sã um ninho de reaccionários, basta fazerem como fiz há tempos: arrangem uma gripe e fiquem em casa deitados no sofá. Liguem a televisão e apreciem.
Entre os anuncios a mezinhas e panelas, à promoção de umas personagens sombrias, sempre autoritárias e muito zangadas com o mundo.
sempre licenciadas na escola da vida que placidamente vão debitando banalidades sempre violentas, sempre reaccionárias, sempre a promover a intolerância, o desrespeito aos direitos humanos, ao estado de direito, à lei. Aos apresentadores, cabe-lhes a rotina de abanar a cabeça ou um abanar de ombros em sinal de concordancia e pouco mais.
Se isto se passasse diariamente em prime time, acabavam em pouco tempo. Porque os elefantes que se passeiam no meio da sala durante a manhã, descansados da vida e que raramente são tema - também não é todos os dias que branqueiam nazis - seriam apreciados por toda a sociedade e não apenas por quem já foi engolido pela doutrina destes programas.


quarta-feira, janeiro 02, 2019

Primeiros dias

Tomaram banho no dia 1 de janeiro 45 pessoas na Nazaré, 36 na Foz do Arelho, 14 em Carcavelos.
O primeiro bebé de Volta, Oeiras e Idanha-a-nova nasceu com 4 kg e chama-se Gonçalo.
Morreram 13 pessoas nas estradas nacionais.
Já passou o ano na Nova Zelândia.
Comeram-se 16 toneladas de sonhos só na Estremadura.
As cadelas apressadas têm os filhos cegos.
16 emigrantes da Tornada voltaram para o Luxemburgo no mesmo autocarro.
O preço da farinha vai subir.
O paquete Funchal está no mar.
O Algarve e mais algumas regiões tiveram 100% de ocupação.
Os saldos começaram a 26.
Só tenho 2 riscos de bateria no telemóvel para o resto do ano.

quarta-feira, dezembro 26, 2018

A manif da semana passada

Na verdade a manif da semana passada foi muito mais fraquinha do que antecipava. Previ um pneu a arder e falhei. Ainda tive a ajuda dos telejornais do dia anterior e dos directos no próprio dia, mas ainda assim, nada. Eles bem fizeram uma pilha de pneus metafórica, mas ninguém a viu nem lhe pegou fogo. Felizmente há uma cultura política que ainda vem dos tempos da revolução e que deixa a imaginação do povinho um pouco condicionada: não há imaginação para ir para além da orientação dos subsídios do estado.

quinta-feira, dezembro 20, 2018

A manif de amanhã

Além de ser uma trampa de uma manif porque não é original e é só uma derivação, é uma trampa de uma manif visualmente. Está tudo errado e usar o paint só devia ser permitido depois de passarem por testes psicotécnicos. Digam o que disserem, uma manif do PC ou do Bloco é outro nível. Há pessoal com cabeça a fazer os posters - posso conceder que a nível de palavras de ordem, a coisa já foi muito melhor - e a qualidade nota-se. Nesta história dos coletes amarelos em Portugal, cada poster e meme que vejo, choro. Já nem vou para as palavras de ordem que claramente surgem da mente de seguranças, polícias, taxistas ou bombeiros. Podem ser os melhores a criar conspirações, mas são maus a escrevê-las. E parecem ser muito semelhantes às conspirações de outros países, mais derivações.
Se os memes manhosos no facebook funcionarem, amanha às 3 da tarde haverá um pneu de tractor a arder em frente à assembleia. No máximo.