segunda-feira, outubro 08, 2018

Temo pelo futuro

Sinto uma obrigação social de usar taxis, assim como comer em tascos e beber copos nos ultimos bares manhosos do Cais do Sodré.
Protejo um estilo de vida. É como proteger o cante alentejano, a janela do Convento de Cristo ou os travesseiros da Piriquita, mas acusam alguns, menos glamorouso.
Eu uso taxis todas as semanas, redistribuindo o dinheiro que podia gastar num carro e em gasolina, mas onde gastaria a minha paciência. É a minha versão privada de trickle-down-enconomics, no fundo. É parecida com a original, mas envolve várias dimensões para além da económica: há também uma transmissão de conhecimento, de ignorância e de poesia de andaime. No fim, fico eu a ganhar, como na teoria original.
Mas infelizmente, os taxistas estão a deixar de ter piada.
Estão a usar aplicações. São a única parte dentro de um taxi instalada depois de 1995. Como tal distraem-nos, tomam-lhes o foco. Perdem-se. Esquecem-se de ligar o taximetro. Esquecem-se do essencial, falar doutra coisa que não a aplicação - para isso tenho os gajos do Uber - e sofrem.
A pouco e pouco, fui perdendo os longos diálogos com os taxistas onde aprendia sobre a sua mitologia, os ritos, as celebrações: as histórias de juizes poderosos de lá da terra. Dos brutos GNR's do tempo da outra senhora, da tropa, do ultramar e de Lourenço Marques-nunca-Maputo e as histórias de gajas, sempre.
Ver as redes sociais a discutir Bolsonaro e o Ronaldo e deixar de denunciar a apropriação do que era apenas do domínio dos taxistas é grave. É mais um ataque a quem vê o seu estilo de vida ameaçado todos os dias. A opinião sobre putas que antes ouviria de um taxista entre um serviço de Santa Apolónia até Santos, ouço-a agora no conforto do meu lar, no telemóvel, vinda de uma dona-de-casa amiga da minha tia ou de um tipo que até estudou com quem trabalhei em 2001 e que parecia normal. Nunca mais ouvi um taxista a apontar como o problema sexual da gaja do carro da frente lhe afecta a condução e a solicitude com que ele o resolveria de bom grado. Muitos, como eu, estão a deixar de debater estes temas com os taxistas e a afastarem-nos do progresso alcançado na ultima década, quando as putas e stripers dos reality shows portugueses passaram a ver mulheres-poderosas e mulheres-independentes. Ouvir um taxista perguntar "o que acha da Daniela? aquela mulher leva tudo à frente!" é histórico. Tudo isso foi fruto do trabalho emocional feito com taxistas, diariamente, por activistas como eu, prontos a diminuir a distância gigante que separa o banco da frente do banco de trás e a desafiar o status quo e a perguntar: tão ladrão é o que vai à horta como o que fica à porta? se aceitar fazer um serviço a um preto, é mais ou menos prejudicado do que se o fizer a um cigano? um gajo rico rouba mais ou menos que um pobre? As putas devem passar recibo ou não? Se um taxista não passa recibo, está a fazer como as putas?
É por isto que apelo à razão e em concreto, à contenção: se as redes sociais promoverem temas controversos e opiniões politicamente incorrectas, lembrem-se onde e a quem pertencem: dentro dos táxis, com os taxistas.

Ashtags da semana

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segunda-feira, setembro 24, 2018

Tudo gente séria

Apanho um Uber, por causa da greve dos taxistas. Pelo caminho, o condutor do Uber começa por descrever o seu modelo de negócio, usando todas as plataformas online. Ao contrário dos taxistas, uns generalistas, os condutores da Uber só falam de negócios. É uma rotina que têm. Explica-me como todos os serviços fazem lucro de forma eticamente reprovável e demonstra-me como os condutores as pressionam de forma concertada - sem nunca lhe chamar uma greve - para melhorar as condições contratuais. Ponderado, conta-me como é honesto enquanto todos os outros não o são, numa versao educadas desta rotina, famosa por ser contada por qualquer taxista em qualquer viagem que faça. Fecha a conversa contando que já tinha sido taxista e no mesmo fôlego descreve que esquema ilegal usava para fazer mais dinheiro. 

quinta-feira, junho 28, 2018

Isto não está abandonado

No dia em que soube que a Pastelaria Suiça vai fechar, tenho de pensar em São Francisco. Há tempos, numa cidade que tem uma falta crónica de casas, um laundromat - uma lavandaria - chega às notícias porque é proposto que seja tido como de interesse histórico para impedir a construção de um prédio de habitação. Só consigo entender o valor estético do laundromat. Fica bem em filmes americanos, tem uma luz interessante, espaços para diálogos mais intimos e honestos dos que um bar ou um elevador oferecem. Ninguém está a beber, há um tempo para gastar, tudo está à vista: as pessoas e a sua roupa suja. Encontram-se as outras pessoas do prédio, da vizinhança.
A pastelaria Suiça é mais antiga e interessante que o laundromat mas, parece, tem o carisma de um pneu. Fim.

terça-feira, maio 15, 2018

Ando distraído com isto

Estava a ver as notícias vindas de Israel, da Palestina, onde não se passa nada
- a grande novidade é ter um presidente americano que (é burro e) tem o apoio de evangélicos (que por acaso são anti-semitas e têm a certeza que o papa é o anticristo) e que vêem a inauguração da embaixada em Jerusalem (decidida unilateralmente do acima referido burro) como um sinal (positivo) da proximidade do arrebatamento e da segunda vinda de Cristo (para alguns) (judeus não incluidos) - de novo.
Estava a lembrar-me do meu pai e dos debates à mesa do jantar e dos argumentos que ele apresentava nos anos 80 e de como era díficil apoiar um lado deste debate incondicionalmente. Passados 30 anos da primeira intifada, os argumentos, por mais internet, twitter, videos e fotografias que os acompanhem, não mudaram nada.

segunda-feira, março 26, 2018

Vão para o trabalho

Os artistas chateiam-me mais e mais. É da idade e do trabalho. A idade tira-me paciência para aturar gente que não se esforça, o trabalho tira-me paciência para aturar gente que me faz trabalhar. Por exemplo, o Markl fez uma série que lhe deu bastante trabalho e está muito feliz com ela, pelo que leio. Eu dei-me ao trabalho de ver 2 episódios e bastou-me. Não tenho de me dar mais ao trabalho, aquilo é fraquinho. O tempo que perdi a trabalhar a minha falta de paciência para diálogos americanizados e maus actores cansou-me. Para me cansar, o que é que já tenho? Trabalho, exacto.
- ah, mas queres consumir sem esforço?
Quero. Uma série de tv sobre eletrodomésticos, a infância do Markl e LP's não pode estar à espera que me canse com ela. Para isso tenho as notícias.