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uma pastilha de 2010, um isqueiro vazio de 2009, um fio dental de 2007,
o porta chaves original e uma factura do Parque Europa, Lambert, 2009. Sem título, vários materiais, 2012. |
A memória de peixinho, à qual me afeiçoei, dar-me-ia trabalho se a tentasse contrariar activamente. Tentei, noutros tempos, para ficar exausto e sem ganho. No trabalho passei a anotar tudo. Ainda assim, falha. Em casa, tentei, mas uma casa não é um trabalho. As coisas não mudam todos os dias.
Fui ocupando prateleiras. Primeiro não tinha nada para as preencher. Depois comecei a enchê-las de memórias. As maiores primeiro. Geralmente são coisas pequenas, bocados de papel, recados, bilhetes, peças de xadrês. Depois passei para as pequenas: mais papeis, mais bilhetes. Finalmente passei para as que não me interessam mas que são importantes à maneira delas: Facturas. Recibos. Papéis das finanças. Da casa. E as prateleiras encheram. Só as podia por nas prateleiras, porque se não tenho tudo à vista, esqueço-me que essas coisas existem. E as prateleiras foram enchendo e deixei de ver tudo e passei só a ter a impressão que por trás do livro amarelo estaria qualquer coisa importante. O mesmo para o envelope pardo dentro da caixa de cartão, dentro da gaveta, tapado por jornais. Ou para a pasta com desenhos a lápis e a gaveta que só uso para tirar e voltar a guardar o corta-unhas. Hoje comecei a escavar as prateleiras. Reencontrei muita coisa. Deitei fora metade. Acabei há bocado, a memória está viva e recomenda-se.