sábado, janeiro 31, 2015

Saudades do mundo, o que pode ser um fado mal acabado. Estrofes a menos para isto tudo.

Idade média, e porque é que digo que isto não muda nunca.


Há tempos estava nos copos com um grupo de gente que mal conhecia e pela conversa sobre saúde, percebi que uma dessas pessoas era médico. Passado um bocado, percebi que também fazia quiropratica. Passado mais um pouco, acupunctura. As especialidades apareciam como um colar de pérolas estacionado em dupla fila. E com elas, muitas certezas. Até a certeza que vacinas contra o cancro do colo do utero não eram seguras, porque não tinham sido bem investigadas.
Quando a noite acabou, descobri que não era médico, tinha um curso de medicina chinesa.
Como me diziam há uns anos, a ignorância é muito atrevida.

quinta-feira, janeiro 29, 2015

Aqui fica a descrição

Um dia, era Verão, tinha 33 anos, a idade de Cristo quando tive uma visão. Estava numa esplanada em Lisboa quando vi o universo a desdobrar-se à minha frente. No ar, vi um rasgo dobrado em quatro. Abriu-se em várias figuras de estilo simultaneamente, em 3 partes iguais de anafiláse, onomatopeias e assimptotas, levantei um canto da carta de jogar mais próxima, era um joker e pude ver, na espessura da carta, uma luz em forma de cachimbo. Do cachimbo saía uma lagarta que ditava mandamentos. Não cheguei a percebê-los bem porque a outra dobra da carta se lhe sobrepôs, fazendo 3 partes agora. Do naipe sairam então 2 virtudes, uma em pedra e outra em carne e osso, a primeira ditando à segunda 2 caminhos, um a somar e outro a dividir. Quando a segunda virtude se dirigiu a mim, tentei tocar-lhe mas desviou-se, recolhendo-se para dentro do baralho, entre 3 cartas de naipes menores. A primeira virtude, agora de pedra, tornara-se irsuta e com olhos de chamas, de onde saiam trunfos consecutivos. Disse-me "pára de escrever essa estupidez e volta ao trabalho." e eu voltei.

quarta-feira, janeiro 28, 2015

Carta a um jovem estudante

Fui assistir a apresentação de trabalhos de fim de semestre numa universidade de design. Os parelelismos são impossíveis de evitar: Era eu tão novo como estes miudos quando andava no curso? tinha tanta falta de jeito? Como é que trabalhava? Tinha a mania? isso tinha, até. Por isso, tenho de deixar isto aqui:


Carta a um jovem estudante de Design

Jovem, se estás na universidade a seguir Design, ouve estas sábias palavras de quem por lá passou, há muito muito tempo, no tempo em que só 3 ou 4 numa turma tinham computador para trabalhar.
O que quero que faças é que ponhas a mão na consciência, pares o que estás a fazer e olhes para o trabalho de outras pessoas. Vais à internet e procuras trabalhos do mesmo tipo do que estás a fazer. Depois voltas ao teu trabalho, analisas as diferenças e por que razões essas diferenças existem e finalmente tentas meter-te na pele de quem vai usar a marca: o cliente, o consumidor, a tua avó. Se fizeres isto bem feito, vais abandonar esse trabalho e vais fazer 10, 20, 30 novas versões. Copia. Rouba. Não faz diferença.
Se ainda assim, apresentares ao teu professor algo que até podes não ter notado mas que lhe deu uma vontade imediata de te dar com uma cadeira nos cornos, fica a saber que o universo funciona assim:

Argumentar com um professor de Design é como discutir com o fantasma do Natal Futuro. Ele já esteve nos teus pés. Ele já estudou mais que tu. Ele já se fodeu mais vezes. Ele já chumbou mais vezes. Ele já fez mais cursos. Ele já conheceu gente mais inteligente e mais burra que tu. Ele já fez mais noitadas que não serviram para nada. Ele já copiou. Ele já viu tudo o que andas a ver. És portanto, transparente.

Se o professor tem dúvidas no raciocínio que usaste para chegar à tua proposta de Design, é para fazer ver um pouco desta verdade. Por isso, a rouca voz da experiência pede-te, encarecidamente: não sejas estupido. Vais acabar a fazer logotipos para talhos.

segunda-feira, janeiro 26, 2015

Ovários e Louça

Tenho lá por casa, por opção - ou condicionamento genético, se calhar - a louça que preciso. Não costumo oferecer banquetes nem tenciono oferecê-los um dia. Não sou um mestre da culinária nem sei rapar a travessa, etc etc, tenho o suficiente para mim e mais uns quantos. Ponto.
Não sabia que isto era um problema, pensava que era uma só uma característica, uma peculiaridade. Mas sempre que alguém com ovários olha para a louça na cozinha, tem um afrontamento. Há qualquer coisa que deixa as mulheres nervosas quando vêem pouca louça. Esta necessidade de esparramar tudo o que fazem na cozinha ao longo de milhentas peças de utilidades diferentes é fascinante. E como prova que é uma questão genética, tenho de responder sempre às mesmas 6 perguntas:
- Onde é que escondes o açucareiro?
Escondo? Eu não perco tempo a esconder nada. Antes pelo contrário. Há uns tempos, descobri roupa que tinha perdido: estava numa gaveta que não abro muitas vezes. Por mim, todos os objectos da casa seriam possíveis de encontrar com uma busca no google. Porque me esqueço que os tenho. Um açucareiro é como um ninho para formigas. O equivalente a uma daquelas almofadas para os gatos. Não tenho.
- Está na hora das sobremesas. Onde tens as taças?
Não há taças. Não uso taças. Não faço sobremesas. Não preciso de taças. É linear. "ah, mas como é que consegues viver sem taças?". Eu também tenho asma e consigo viver com ela. Imaginem viver sem taças. Custa ainda menos. Claro que fazer acreditar que isto é lógico nunca adiantou de nada. A pergunta "onde tens as taças?" gera sempre polémica e esbracejamento involuntário por parte das mulheres, em desespero. Nunca tive um amigo a perguntar-me onde estão as taças. Ergo, genética.
- Onde estão os copos do vinho?
Uns dirão que sou um labrego pouco sofisticado, outros que sou um anti-consumista, outros dirão forreta. Entendidos dirão que sem uns copos largos que deixem o vinho respirar, estou a perder o verdadeiro prazer de saborear um bom vinho. A verdade: Sou preguiçoso. Isso implicava lembrar-me de ir ao IKEA para tratar disso, quando já tenho tudo o que preciso em casa.
- Os pires do café?
A minha casa é um snack bar? não.
- As colheres do café?
As colheres do café são das peças mais fascinantes logo a seguir às colheres da meia de leite, peças que são usadas para uma coisa só. É como comprar uma televisão que só vai passar o canal 1. Já tenho as de sobremesa. Usem o cabo, como eu. Forma aliada à função.
- Não tens nada para moer ( não é moer, mas não tenho mais termos técnicos ) os alhos?
Facas.


quinta-feira, janeiro 22, 2015

Chegar em segundo não é opção em algumas ocasiões

Sim, participar é importante. Mas participar no mercado de trabalho implica mínimos. Se vais correr para ganhar dinheiro e não só para aquecer, não podes ir mal preparado. Tens de chegar nos primeiros 10, pelo menos. Se vais só para participar, não ganhas nada ou ganhas um prémio simbólico.
Chega de metáforas: Se te comprometes a entregar um trabalho, entregá-lo não é só o acto da entrega. Implica que tudo o que o cliente pediu OU MAIS fique cumprido. Se o cliente pediu para entregarem Terça, entregam na Segunda? Fica bem. Não era preciso, até. Mas o resto do que era esperado também tem de estar lá. Não há aqui uma lei de compensações. Pontuar extra num dos critérios não alavanca nos restantes se um deles for fulcral. Se uma das premissa da peça que foi encomendada é que fosse simétrica - não havia muito mais regras para seguir - e em vez disso surge uma trampa com um logotipo descentrado, fica só uma ideia de que não conseguem perceber o conceito de meio, metade, 50%, simetria, alinhamento, centro, axial, eixo, rumo, nexo, realidade, universo. E que estão cá só para aquecer.