Terça-feira, Novembro 24, 2009

Taxistas.

Apanho um velhote surdo a caminho de casa. Revela-me que é de Coimbra e veio para Lisboa há 50 anos, onde é taxista desde sempre. É dos tais a quem vale a pena dizer que vivo no Lumiar em vez daquele bairro com nome estrangeiro - é que esta zona era mesmo um bairro de barracas, mas graças a despejos certeiros e estratégicos, ficou mesmo bonito. Agora tem ruas imaculadas e silenciosas, com prédios cheios de gente de horários clinicamente controlados e sem desvios. No meu prédio descobri que a antena não apanha os 4 canais; acontecesse isto com um daqueles inquilinos cívicos e já tinha um papel no elevador a anunciar uma democrática reunião de condóminos, onde se votaria uma resolução rápida e correcta -
Conheceu a mulher bem novo, casou bem novo também. Vive num bairro antigo, mas espera o momento de voltar à terra, onde tem uma horta. Citou-me vários provérbios tipicos da terra dele, mas falhou em impressionar-me. "Devagar se vai ao longe" não me pareceu ser um regionalismo muito forte.
Não me falou de putas. Mas também não puxei por ele.

Sábado, Novembro 21, 2009

T.V. maldita

A t.v. apoderou-se da minha alma, novamente. Por duas noites seguidas, fico agarrado à recém-chegada t.v., na sala, até às 3, 4 da matina. Depois, claro, acordo todo fodido. A porra da televisão está a fazer-me gramar com noticias sobre cogumelos venenosos, gripe A, corrupção e sucateiros a toda a hora, e em repetição. Este demónio hipnotizou-me a raios catódicos e recuei varias décadas de evolução, quase sem me dar conta: larguei o "simulação e simulacro do Baudrillard e passei para a Maria e o ultimo da Margarida Rebelo Pinto; à noite, depois de comer vegetais salteados em cama de portobello ia discutir a divergência epistemologica no anarquismo social de Bakunin com a vizinha do lado - agora meto-me na conversa com a porteira a falar mal da lambisgoia do 4º que é uma badalhoca e deixa a escada que é um nojo, enquanto como uma sandes de torresmos com a boca aberta; Andava a rever as obras de Jarmush e a recordar os "limites do controlo", quando dou por mim a ver "A Mumia" pela 6ª vez; pensando bem, já antes dizia que mal da lambisgoia do 4º e comia de boca aberta.

De qualquer forma, um dia destes a televisão sai da sala.

Terça-feira, Novembro 17, 2009

Sem chuva, hoje.

Em direcção ao Cais do Sodré, dou de caras com o puto do Stevie Wonder. É mesmo puto. Pela rua do arsenal, passo à casa que no 5º andar tem um quintal com uma fonte fechada, de onde a única maneira de ver o rio é subindo ao telhado. Passo por aquele gajo comuna da câmara, com cara de quem ia defender o proletariado sem almoçar. Subo a rua Augusta, onde ainda ontem perdi de vista uma manequim e vou em direcção ao restaurante indiano do costume. Está cheio.
Paro ali ao lado, na igreja. Tiro umas fotos com a intenção de arranjar uns títulos espirituosos. Sigo pela rua das Portas de Santo Antão. Já passa da hora de almoço, mas todos os tascos continuam cheios. Subo. Uns metros acima do elevador do Lavra, entro na tasca mais pequena que vi. O homem à minha frente, muito lentamente, come a sopa a 10 cm do prato, com a mão a tremer. Não é mais velho que eu, mas engana. À saída, passo pela montra das malas de 200 contos. Apanho o autocarro para o Saldanha, com um puto a ouvir Michael Jackson em alta-voz. Aponto para casa depois de ter visto como os centros comerciais estão cada vez melhores com o Natal. ( o oposto. )


Stairway to heaven

Quinta-feira, Novembro 12, 2009

Escolhi esta foto pelo poder das meias, mas acho que não é isso que me está a chamar a atenção.

Roubado descaradamente do E Deus criou a Mulher.

Quarta-feira, Outubro 28, 2009

Ao campo das cebolas

A dona Beatriz benze-se. Passa as mãos na caixa, feita numa amalgama de madeira e placas de metal a agradecer graças concedidas. Desde doenças a exames passados, o todo da caixa é coberto de placas de metal, como cartoes de visita. O vidro da caixa deixa ver uma figura de ar languido que faz de santa. Depois de contar às vizinhas assertivamente como a mãe, irmã e filho morreram depois de anos a cuidar deles, sai.
À saida, passa pelo Cristo. Baixinho, agradece-lhe todo o bem que lhe trouxe, meio a choramingar. Agarra-lhe as coxas e deixa cair as mãos pelas pernas. Nisto, olha-me de lado e sai, com as mãos a pingar água benta.

Quinta-feira, Outubro 22, 2009

Do nazareno

Chateia-me esta conversa à volta do Saramago: é que se por um lado o velho é repetitivo e só diz baboseira, por outro é o dos poucos ateus militantes a quem é dado tempo de antena.
Tenho é a ideia que o tipo de argumentação [ bíblia = livro que ensina o mal ] é simplesmente parvoice - sendo que eu nunca a li de fio a pavio e pode ser que lá pelo meio possa ser um anarchist cookbook com tácticas de guerrilha contra centuriões ocupadores - quando tenho a ideia que a bíblia até peca por falta de objectividade em matéria de vinganças, castigos e penalidades ( não me ensina como aplicar uma praga de gafanhotos a quem não me paga a tempo, por exemplo ) . Não ensina o mal, porque ensina MAL. Imagino cada caloteiro a acordar com gafanhotos a entrar nas orelhas ou viver nas trevas 3 dias. Como cobrador do fraque, o Nazareno seria o empregado do mês ad eternum.
Fico com a ideia que o Velho não quer dizer nada de importante contra as crenças religiosas de ninguém, mas apenas vender mais uns livros.

Quinta-feira, Outubro 15, 2009

Noves fora

Continuo a ser designer. É uma cruz.
Estou cheio de ver código, erros, virgulas a mais, virgulas a menos. Caixas altas a menos, hifens fora do sitio.
Cada vez gosto mais de desenhar e contar histórias.
Vivo em Lisboa, num bairro pacato com ligações de fibra óptica onde todos se deitam às onze.
Quando me farto de estar em casa, metos os headphones e vou andar até onde o conforto dos sapatos deixar. Ouço Stevie Wonder em repeat até atinar com o timbre do homem.
Prefiro a zona velha da cidade.
Ainda entro em todas as igrejas por onde passo.
Ando com a máquina fotográfica todos os dias, hábito que está cada vez mais presente.
As histórias dos taxistas, pensões e residenciais decadentes ficam-me sempre na memória.
Quando chegarem as chuvas, devo ir buscar o casaco-escafandro e manter esta rotina.