quinta-feira, junho 22, 2017

Estou a ficar como o meu pai

Se-isto-fosse-no-tempo-do-Passos, começaria o meu pai na conversa à volta das notícias da noite, PSD desde sempre, e continuaria a enumerar exemplos históricos para demonstrar como existia uma dualidade de critérios. Na altura dele era o Cavaco, mas vai dar ao mesmo. Eu não tinha idade para me ter assistido a nenhum exemplo histórico, por isso não fazia diferença. Se não aconteceram à minha frente, não aconteceram, não fazem diferença.
Mas, fosse um tipo mesmo imparcial como eu acho que sou (ahah), já estaria a exigir a cabeça do Costa, já lhe tinha chamado todos os nomes, já tinha exigido a cabeça de mais 3 ou 4 ministros pela via das dúvidas, já espumava, já tinha sonhado que estava a discutir engenharia florestal com o Costa, tudo. Mas como também já sei melhor que isto, fico calado.

quarta-feira, junho 21, 2017

A idade é um posto

Ter o dobro da idade dos estagiários dá-me um género de super-poder-telepático-ESP de perceber sempre o que se está a passar na cabeça deles: não estão a perceber nada do que eu digo.

terça-feira, junho 20, 2017

Isto é sobre notícias

​Nos primórdios da internet, quando não havia mais do que um modem de 56Kpbs ligado à linha de telefone, um gajo perdia horas à espera de imagens. Podiamos ficar parados zombies a olhar para o ecrã uns 2 minutos só para ver revelada mais uma faixa horizontal de 100 pixeis, toda borrada. Primeira passagem, 100 pixeis amassados do tamanho de selos, segunda passagem a coisa ficava melhor, mais 10 minutos e mais uma passagem, a pouco e pouco, barras de 100 pixeis de cada vez e finalmente tinhamos a imagem. A imagem podia não valer nada. Mas só quando estava acabada é que sabiamos se era boa.
Passados 20 anos, parece-me que este modo progressivo de entregar imagens serve de metáfora para muita coisa, mas encaixa mesmo bem com o jornalismo de hoje, progressivamente refinado - desde o tweet do estagiário do Correio da Manhã até à reportagem de fundo do Expresso - e só possível de consumir depois de umas boas passagens.

segunda-feira, junho 19, 2017

Regar com gasolina

Basta ter estado o fim de semana inteiro sem televisão, sem internet e sem telemóvel para perder o fio à meada e para, aterrado ontem à noite em Lisboa, seja estranho a tudo o que se passou. Imagino as centenas de horas que a televisão dedicou a tudo o que aconteceu e como as imagens, que não precisavam de legendas nem comentários, serviram de combustivel para as redes sociais, onde lhes dão significados novos. Já vi uns artigos poético-pastoris feitos para a lágrima fácil, abutres ao lado de cadaveres e muitos doutores em engenharia florestal formados em 2 dias. Uma corrida a ver quem legenda melhor o que aconteceu. Tenho saudades do tempo em que o tuga tinha vergonha de ter opiniões muito alto.

sexta-feira, junho 16, 2017

Genética

Há algo que leva os designers juniores a fazer o mesmo tipo de nheca (com más fontes semi transparentes, layers em blur, repetição de fontes) independentemente do ano em que nasceram. Sejam nascidos em 1975, 1980 ou 1995, é tudo igual. Consigo observar este fenómeno em várias gerações, regiões e níveis intelectuais. Uma estética isolada de todas as correntes que a circundam. É como se houvesse uma má fonte de onde todos bebem sem saber bem porquê.

segunda-feira, junho 12, 2017

O futuro a morder-me os pés

Os estagiários esgotam-me e fazem-me pensar no tempo em que não fui estagiário por muitos motivos mas essencialmente porque tinha um ego suficientemente grande para achar que seria só perder tempo para uma empresa sem ganhar dinheiro era um luxo para meninos do papá e que já sabia o suficiente para ser pago principescamente. Passados uns anos observo: os estagiários são pagos principescamente pelos papás, dando em troca o seu ego, o que me facilita a vida, porque são nabos como eu era.

Lá ao pé de casa, umas portas ao lado, estão a construir um bar. Não sei se o bar é cool ou não porque a estética do bar me ultrapassa. Parei no tempo, tenho a certeza. Deixei de querer seguir qualquer estética do momento assim como deixei de querer que a miudagem de 20 anos entenda alguma referência que faça a algum filme anterior a 2010. Dad Jokes sem ser dad, passo. O bar de certeza que será um sucesso, apesar de brutalmente mau, mas uma coisa garanto: fazer de um aquário com peixinhos o balcão de um bar não vai funcionar, provavelmente.

Fui à praia. Sou o ultimo adulto sem tatuagens. Sinto-me um rato pelado explorador do planeta dos macacos, a tentar passar despercebido, sem mostrar a ninguém o nome dos filhos nas costas, por quem torço numa batalha entre polvos e tubarões ou com quem estou casado forever.

sexta-feira, junho 02, 2017

A grande conspiração

Políticos e jornalistas de todas os sexos, cores, ideologias e nacionalidades encontram-se regularmente para trocar propaganda em primeira mão e veicular a ideia de que ambos estão preocupados com a situação actual.
Prezado gosta de ameijoas à bulhão pato.

Realidades alternativas

Estudos indicam que as pessoas mais velhas sabem mais por via da experiência. Se uma pessoa não tão velha quanto isso experiênciar os mais diferentes fenómenos chave com alguma regularidade, pode chegar a perceber meia duzia de coisas muito antes do tempo, nomeadamente:
- nada vale mais do que ter tempo para não fazer nada.
É isto.

quarta-feira, maio 17, 2017

California knows how to party

Depois de várias idas aos States, o desencanto. Talvez seja do vento que era muito, ou do made in china ou , mas a California pareceu-me só um Portugal descaracterizado. A costa da California, longe das florestas espetaculares - mais interiores - de árvores como não há cá, faz lembrar o Alentejo, eu sei, esta mania de nivelar tudo pelo meu Portugal, tudo à minha escala pequena e familiar, no fundo é um ressabiamento recalcado, a vontade de dizer que isto aqui é bem melhor, que aqui só somos maus a vender isto, mas simultaneamente a ideia de que falar disto um pouco mais alto vai ser o começo do fim da beleza da coisa, da beleza das coisas simples, que são só por ser. Uma praia é uma praia é uma praia.

quinta-feira, abril 20, 2017

Ainda a porra das vacinas

Percebo a dor dos médicos: pessoas com experiencia dão uma opinião informada, argumentam, apresentam soluções, fazem piruetas e no fim não conseguem convencer meia dúzia de casmurros de que só querem o melhor para todos. O que é um pouco assustador é que qualquer designer está habituado a isto porque, dizem, há muita subjetividade neste campo de trabalho. Que os médicos chegassem a este ponto, nunca pensaria. Agora só falta é juntar todos os designers, agências, ateliers e vãos de escada numa mega conspiração, chamar-lhe "big design" é viver à conta dos papalvos que ainda acreditam que a comic sans não deve ser a fonte do diário da república.

Ainda as vacinas

Ontem pensava na desinformação que anda por aí à volta da vacinação e como também é um problema de comunicação, onde os papers das farmaceuticas estão a perder caminho para formas de comunicação mais imediata e mais fácil de processar cognitivamente. Por isso fiz esta experiência, depois de estudar a linguagem visual usada pelos movimentos anti-vacinação.



quarta-feira, abril 19, 2017

Escolha a sua causa

Hoje as redes sociais estão num alvoçoro numa caça às bruxas não vacinadas. Como entendo a necessidade que muitas pessoas têm em mostrar que não fazem parte do rebanho mas geograficamente estão dentro de um onde eu pertenço, deixo aqui algumas opções que podem promover em alternativa à não-vacinação. Podem escolher uma só, e até podem promovê-la no facebook, como faz o pessoal do running e do crossfit:
Não usem microondas. Não usem pesticidas. Não comam alface. Não comam carne branca. Não comam carne vermelha. Não usem lã. Não usem polyester. Não comam alimentos geneticamente modificados. Não matem abelhas. Não comam abelhas. Não comam fósseis. Não vejam as horas. Não andem de bicicleta. Ou andem de bicicleta. Mas não usem capacete. Ou usem capacete. Não tomem aspirinas. Não usem desodorizante. Andem de metro. Não andem de autocarro. Comam gomas uma vez por semana. Não comam nada com açucar. Usem polyester. Só usem açucar mascavado. Não façam reciclagem. Façam reciclagem. Andem a pé. Não corram muito. Corram tudo. Bebam cerveja. Não bebam gasolina. Não usem cortiça. Não usem plásticos. Não usem sacos de plástico. Não comprem animais. Não vendam animais. Não comprem escravos. Não vendam escravos. Usem cesto de verga. Não comam animais com escamas. Não tomem a parte pelo todo. Não votem não. Não votem sim. Não percam tempo. Párem para pensar. Pensem duas vezes. Bebam 2 copos de águas antes de dormir. Não comam laranjas. Queimem bruxas. Não façam queimadas. Comam biológico. Bebam do mictório. Larguem as drogas. Cortem no café. Não andem de mota. Contem chemtrails. limpem os pés antes de entrar em casa.

segunda-feira, abril 17, 2017

Mais um ano

Isto anda parado, mas não morreu. Talvez esteja moribundo, mas é só porque a minha qualidade de vida me atirou para uma Suécia privada, onde não tenho nada para me queixar que mereça assim tanta atenção. Não ando muito de metro, nem de autocarro, ando pouco a pé num bairro onde toda a gente tem mais mestrados que eu, os vizinhos emigrantes dão-me os bons dias, já  acho que nem há racismo neste bairro, os putos do bar de baixo só fazem barulho no verão, já não leio notícias sobre o Trump, - porque já vivi uma guerra fria nos anos 80 e bastou-me, tenho mais que fazer do que me preocupar com acontecimentos que escapam do meu controlo - porque enfim, não me posso cansar muito.
Mantenho alguma estima por um tema: estragarem Lisboa - ou "o progresso" - continua a lixar-me, e passa por coisas pequenas, como ir tomar o pequeno almoço a caminho do trabalho e sem dar por isso, levar com um caos pseudo-hipster com tábuas a fazer de prato em banda sonora claramente forçada, - não há nenhum empregado de pastelaria, sem tatuagens contemporaneas, sem peircings, e que não seja claramente de Belas Artes que ouça Bill Evans às 9 da manhã de uma segunda feira voluntariamente  - uma salada de opções que são só tiradas de uma colecção do pinterest sem o mínimo interesse e que não pertencem nem a Lisboa nem a lado nenhum. Sim, o turismo, sim essa tralha toda, mas eu ainda tenho direito a querer que isto não mude. É mais cómodo para mim, e isso é que interessa.
Este blog faz 11 anos. Já foi moderno, já foi uma antiguidade, hoje é uma instituição. Há jornais com menos credibilidade que isto. Foda-se, até o Saraiva tem opiniões mais estupidas que eu.

terça-feira, março 21, 2017

Tiro no submarino

Descobri que um restaurante de Lisboa que me era desconhecido vai provavelmente fechar. Parece que é histórico. Há uma petição para o salvar. No meio da indignação habitual que afecta só algum tipo de estabelecimentos - auto link, esse assunto já foi abordado cientificamente aqui - só me resta perguntar, porque é que ninguém me avisou que o Faz Frio existia, sequer? isso de haver restaurantes históricos famosos que eu não conheço parece-me cruel.

segunda-feira, março 13, 2017

Freelance

Hoje ofereceram-me um trabalho em que era necessária uma habilidade que eu tinha há 10 anos. É o que dá trabalhar há 20. E não actualizar o portfólio.

domingo, janeiro 29, 2017

A internet cansa-me, certos dias

Há tempos li algures (não me lembro mesmo onde) que da mesma forma que se descobriu que a televisão era óptima para promover o medo, descobre-se que a internet serve para promover a raiva.
Estudos indicam que para cada utilizador de internet, exactamente 50% dos conteudos que encontram são uma merda. Como preciso de descanso mental, vou deixar de promover ideias radicais como o uso de pensamento crítico e deixar que cada um chegue lá sozinho. Deixo aqui uma parábola moderna:

Há muito tempo, uma amiga minha tinha uma conta de instagram onde postava fotos de sítios bonitos. Infelizmente, as fotos eram mutiladas com muitos, muitos filtros. Mas as pessoas gostavam das fotos.
Com o tempo, ela foi tirando fotos com menos filtros. Finalmente, deixou de os usar. E as pessoas continuaram a gostar das fotos.

Moral desta parábola: 1. Não fodam as fotos com filtros, mesmo. 2. Paguem aqueles 2 ou 3 euros que a Wikipedia pede anualmente, senão deixo de ter coisas para ler.

sábado, janeiro 28, 2017

Boicote às padarias que pagam ordenados mínimos

Façam isso e depois digam-me onde é que vão comprar pão.

terça-feira, janeiro 17, 2017

Workshop

Meti-me num workshop baratucho convencido que o dinheiro que não estavam a cobrar estaria apenas a comprometer a qualidade e variedade de material usado durante as aulas mas não o conhecimento partilhado. Foi um erro meu, porque seria aí que cortaria, caso fosse eu a oferecer um workshop.
Engano meu.
Na verdade o workshop era barato porque o formador era um figurante.
As capacidades de comunicação não eram brilhantes. Não vi um gato preto passar na porta várias vezes mas percebi que estava na Matrix quando ouvi várias vezes a mesma má explicação para uma pergunta bem simples que infelizmente repeti.
Continuando nas comparações com filmes, temporalmente a ultima aula foi semelhante ao Inception. Como nos sonhos, também o tempo na aula era inifinitamente mais longo que o tempo no mundo real. O que demorava uma hora e meia no workshop passava-se em 15 minutos no mundo real.
Continuando ainda noutro filme, a pobre italiana que acompanhava o workshop viveu o Lost in Translation. Perdida entre duas referências de filmes, era o seu próprio gato preto da matrix, sempre que parava para questionar se o lugar em que se encontrava era real ou não. "It must be the language, but I didn't understand what you just explained. Can you say it english?". Mas não.
Foi assim que pela primeira vez na vida, saí a meio de um filme.

quinta-feira, janeiro 12, 2017

Estatisticamente improvável I

Os maiores problemas (e soluções) das empresas são os humanos. Os humanos fazem coisas espetaculares, mas falham bastante para chegar lá. A maneira como lidam com os falhanços em Portugal é tradicionalmente pela via judaico-cristã. Isto implica muita emoção, muita culpa, muito sofrimento. Mesmo em empresas modernaças. Um dia destes, fora do trabalho, tive uma troca parecida com isto num workshop:

- Então, o que é que fazes além disto?
- Designer. Também tento fazer umas ilustrações.
- No trabalho? isso deve ser difícil.
- Ah, é mais vectorial, são mais simples. É um bocado técnico.
- Deve ser uma chatice, tens de fazer o que não queres.
- Não, nem por isso. O chefe deixa-me fazer o que quero. Quem manda é a Marca.
- Pois, deve ser sempre a mesma coisa.
- Vou fazendo tudo à medida da marca.
- É lixado (ri-se).

Esta mania tuga que um gajo por estar a trabalhar está a sofrer é só um dos sintomas. Há muitos mais.

terça-feira, janeiro 03, 2017

Pessoas que tiram fotos de grupo no ar a meio de um salto

Vocês fazem figura de otários. É só isto.



Ano Novo

Há uns anos bons, seguia 70 blogs diariamente. E ainda lia as noticias. Queria saber tudo o que se passava. E tinha tempo.
No outro dia reparei que, sem pensar, fiz uma decisão de ano novo que é um sinal dos tempos.
No outro dia, procurei no google como bloquear notícias de chegar até mim sem eu querer. Todas. Queria todos os feeds que tenho, desde o facebook até ao feedly, limpos de noticias.

Já não quero perder tempo com a realidade criada por trolls profissionais. Tenho claramente coisas bem mais interessantes para fazer, como glorificar a minha opinião junto de quem quer acreditar em mim até ao ponto em que a tomem como facto.

Portanto, vou começar a promover aqui o mundo como ele é. A verdade é que o mundo está todo bem, tirando as máquinas de vendas de bilhetes da estação dos Anjos.

Abaixo, uma carrinha com um palhaço de cartão no lugar do morto prepara-se para atacar um guarda-loiças.